Mercy Zidane: 2009

sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

André Abujamra, Karnak, Os Mulheres Negras e Mauricio Pereira

Não me lembro o motivo, mas baixei um disco do André Abujamra em meados 2005. Chamava-se "Infinito de Pé" e descobri que se tratava do primeiro trabalho solo do filho do conhecido ator e dramaturgo Antônio Abujamra, aquele do Provocações.

Gostei muito do álbum, de cabo a rabo. As bases continham um ritmo característico de rock/pop, mas Abujamra usou muitos sons "estranhos" que apreciei, como vocalizações e percussões "tribais" nas músicas Inifinito de Pé, O Dah Ho e Olho Azul. Senti um teor melódico muito forte em quase todas as faixas, como quando você ouve a canção e acha o som "bonito" a ponto de ficar emocionado. As letras eram um caso à parte. Sempre com constatações afirmativas (muitas vezes religiosas e até conformistas), simples e engraçadas, André versou sobre assuntos como:

Racismo, em Olho Azul - "Meu olho azul é um negro diluído. Racismo é um rio poluído";
Guerra, em O Dah Ho - "Olho por olho, dente por dente: balela. Porque o homem vai ficar cego e banguela";
Amor, em Essa Música Não Existe - "Não existe nada. Não existe tudo. A única coisa real: amor";
Deus, em Nóis Eh Sampli - "Nóis é sampli do mundo. Nóis é sampli de Deus";
Infinito, em Infinito de Pé - "O infinito de pé são dois biscoitos. O infinito de pé é o número oito".

Gostei da mistura de influências e da beleza das músicas, concordei com a maioria das letras (minha cabeça mudou muito de 2005 pra cá, principalmente sobre as questões acima - que isso fique bem claro) e com o modo bem-humorado e direto de passar as mensagens. Fiquei completamente viciado em "Inifinito de Pé". Mostrei as músicas para minha mãe, minha irmã e até para minha avó materna (que gostou das faixas calminhas). Era o disco titular do meu aposentado discman e teve grande influência sobre mim.



Pesquisando, vi que André já tinha participado de duas bandas: Os Mulheres Negras e Karnak. Baixei um disco do primeiro grupo, mas o som demasiado "anos 80", com bateria eletrônica marcada, não me agradou de cara. No entanto, os álbuns "Universo Umbigo" e "Estamos Adorando Tókio", do segundo conjunto, conquistaram-me rapidamente.

Eu me lembrava de uns dois clipes do Karnak que passavam na MTV quando eu era criança e da participação da trupe no programa de humor do João Kleber, bem no início da Rede TV!, quando as famosas pegadinhas e testes de fidelidade ainda nem eram cogitados no programa semanal. Com dez músicos, dois atores e um cachorro(!), a mistura era o que melhor poderia definir o Karnak. Canções em português, russo inglês, italiano, espanhol, ritmos rápidos, lentos, rock, baião, repentes, modas de viola, ska, dança do ventre, metais, percussão, complexas harmonizações vocais, bom humor e sensibilidade. Era mais ou menos o que eu havia encontrado no trabalho solo de André Abujamra, mas com uma intensidade bem maior (não poderia ser diferente com tantos universos de carne e osso pensantes num só grupo). Baixei todos os quatro álbuns e os ouvi intensamente. Dos três discos de estúdio, não sei dizer qual é o melhor. Novamente viciado.



Passei a caçar shows do Abu ou do Karnak em quaisquer cidades acessíveis. Foi aí que o SESC Bauru apresentou "Mauricio Pereira e Turbilhão de Ritmos", em 2006. Lembrei-me dos Mulheres Negras (que se alcunhavam ironicamente como a terceira menor big band do mundo, composta por André e Pereira) e da trilha sonora do filme Durval Discos, de Anna Muyalert (feita pela dupla), e fui. Porém, não gostei muito. O show foi bom, a voz dele era muito bonita, a presença de palco também excelente, mas o espetáculo era composto apenas por versões de músicas bregas. Minha vontade de aprofundar os conhecimentos sobre o trabalho de Mauricio ficou adormecida.

Eu soube do lançamento do segundo disco solo de Abu, "Retransformafrikando", em 2007, mas não consegui baixá-lo na net.

Continuei ouvindo Karnak e André ao longo dos anos, mas com uma intensidade cada vez menor. Eis que chega 2009 e eu finalmente consigo fazer o download de todas as músicas do segundo disco de Abujamra. O caráter religioso estava mais forte e mais conformista ainda, mas as melodias e a mistureba, dessa vez mais voltadas para o eletrônico, me conquistam de novo. Viciado pelos mesmos motivos, entrei despretensiosamente na comunidade do orkut sobre o compositor. Suponhamos que isso tenha ocorrido no dia 10. Havia um tópico na comunidade: Show de André Abujamra em Mogi das Cruzes (cidade vizinha a Suzano) no dia 11. Fui e curti muito! Foram apresentadas as músicas mais famosas da carreira de André em todas as bandas que ele teve.

Como eu estava ouvindo "Retransformafrikando" sem parar, resolvi dar mais atenção a'Os Mulheres Negras. Fiquei com raiva de mim mesmo por não ter gasto meu tempo com eles antes. A banda é uma espécie de embrião do Karnak. Como eu já disse, tem um jeitão bem anos 80 por causa da bateria eltrônica, mas já misturava músicas caipiras com rock e carregava no humor. Eles também não tinham vergonha de assumir que lidavam com música pop e tentavam reconstruir o lixo da indústria cultural, muitas vezes ironizando-a.



Daí pro Mauricio Pereira foi um pulo. Baixei os discos e me encantei com "Pra Marte", o seu trabalho mais recente, de 2007. Mauricio parace ser mais duro que Abu. Apesar da comicidade de canções como A Loira da Caravan, há faixas de extrema sensibilidade como Trovoa, Truques com Facas e Queito um Pouco. As músicas são simples: arranjos típicos de uma banda de rock com o adendo de instrumentos de sopro (tocados pelo próprio Pereira) e letras que transbordam sentimento.
Os versos são mais complexos e metafóricos do que os de Abu e Karnak. Veja alguns trechos das letras:

"Beijar-te e fazer sentido. Querer-te e me sentir feito um foguete que prosseguiu subindo pra marte", em Pra Marte; "O simples ato de cheirar-te me cheira à arte, me leva a Marte, a qualquer parte...", em Trovoa; "Difícil conter tanta coisa que eu tenho quando eu tô vazio", em Quieto um Pouco.

Considero "Pra Marte" o melhor disco que ouvi em 2009. E seguindo a mesma lógica, cavoquei os demais álbuns de Pereira, apreciando muito "Mergulhar na Surpresa", feito predominantemente com voz e piano.

E o engraçado é que, assim como na época em que eu estava vidrado em "Retransformafrikando", descobri um show de Mauricio Pereira, desta vez no Casa de Francisca, em São Paulo. Foi sensacional! Abaixo, um vídeo da apresentação que acompanhei:



Quando eu pensava que já tinha tido sorte suficiente por um ano, fiquei sabendo do show anual do Karnak no SESC Pompeia. O melhor show da minha vida:



E foi assim, procurando uma coisa, descobrindo outra e ficando supreendido positivamente ao longo desses 5 anos, que encontrei os discos incríveis desses artistas que sintetizam bem a "música urbana" de São Paulo. Espero que você, caro leitor, se deixe influenciar pelo meu bom gosto e faça o favor de ouvir as músicas dos vídeos acima.
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Metalinguagem: tive vontade de escrever este post após o show do Karnak, no sábado passado. Parece que estou me acostumando com posts longos, apesar de nunca ser a intenção inicial.

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

2009 para o Palmeiras: o ano do quase

A temporada 2009 acabou e o meu time de coração, o Palmeiras, mais uma vez, não ganhou nada.
Inspirado no post do Disparada sobre o fracassado elenco são-paulino, escrevo este texto. O objetivo é traçar as evoluções e dificuldades do Verdão ao longo de 2009, para depois emitir minha opinião a respeito dos mercenários (com exceção de São Marcos) que vestem o manto sagrado (assim como o Bulhões fez com os tricolores).

Vamos lá. Em 2008, após o título paulista e o quarto lugar no Brasileirão, o então técnico Vanderlei Luxemburgo resolveu dispensar medalhões, que estavam fazendo corpo mole e teriam seus vínculos finalizados em breve, para contratar jovens promessas que poderiam render altas cifras à Traffic (empresa que investe no Palmeiras) num futuro próximo. Desta forma, Denílson, Élder Granja, Leandro, Martinez, Roque Júnior, Alex Mineiro e Léo Lima foram para o olho da rua e não fizeram a menor falta. O mesmo eu não posso dizer sobre Kléber e Gustavo (até hoje não entendi o motivo de sua dispensa). 

A reformulação foi tão grande que a torcida organizou protestos na reapresentação do time. Os jogadores que chegavam eram praticamente desconhecidos (Cleiton Xavier, Willians, Armero, Danilo, Maurício Ramos, Marquinhos). Mas as mudanças afetaram o estilo de jogo da equipe, que passou a ter como principal arma a velocidade, com ênfase nas descidas ao ataque do lateral-esquerdo Armero, nos dribles de Willians e nos toques ligeiros de Cleiton Xavier. A chegada do matador e futuro traidor Keirrison (foto, ao lado de Diego Souza) era a cereja do bolo alviverde. Nos primeiros meses de 2009, o Verdão jogava o melhor futebol do Brasil. 

Eis que o time começou a apresentar deficiências no setor em que Luxemburgo e o Palmeiras menos investiram: a defesa. Os bons zagueiros Danilo e Maurício Ramos (que, na minha opinião, têm qualidade técnica inferior à do ex-palmeirense Gustavo, contratado pelo Cruzeiro) ainda não estavam entrosados e o péssimo volante/zagueiro Edmílson começava a entregar alguns jogos. Assim, apesar da classificação em primeiro lugar no Paulista, sofremos para chegar às oitavas da Libertadores, quando São Marcos salvou de novo, pegando três pênaltis contra o Sport. Nas quartas, o corpo mole de Keirrisson e a forma física ainda não ideal de Obina se faziam evidentes. Naufragamos, mas pelas expectativas iniciais até que fomos bem longe. O abatimento resultou na eliminação do Paulistão, em derrota frente ao Santos. A sensação era de que o time ainda não estava maduro.

O Brasileirão começa e a equipe empata alguns jogos, ganha outros, mas não empolga. Os problemas defensivos persistiam, tanto no 3-5-2, quanto no 4-4-2. Quando caminhávamos para mais uma campanha medíocre, Keirrisson, o grande traidor, é pivô da demissão de Luxemburgo. De uma hora para outra, o Palmeiras perdia seu principal artilheiro (24 gols em 35 jogos, vendido para o Barcelona) e o técnico que fizera todo o planejamento para o decorrer do ano.

Contrariando a lógica, foi aí que o time voltou a jogar bem. O interino Jorginho mostrou sua capacidade ao escalar a equipe de acordo com a formação inicial do adversário. Acertou ao colocar Obina e Ortigoza juntos contra o Avaí; ao posicionar Diego Souza mais à frente e escalar Ortigoza como único atacante na vitória contra o Flamengo; ao entrar com três volantes e anular o meio campo adversário nos 3x0 contra o Corinthians. A defesa parecia mais confiante. O Palmeiras atingiu a marca de 12 jogos sem derrota (que veio contra o Goiás, fora de casa, e com forte ajuda da arbitragem).

De um time sem muitas pretensões no Brasileiro, o Palmeiras passou a ser o grande candidato ao título, principalmente com a chegada de Muricy Ramalho (foto). O ex-são paulino implantou um ferrolho, jogando sempre com três volantes (mesmo em partidas no Palestra). A defesa se solidificou de vez e, apesar dos resultados magros e do futebol nada empolgante, o time chegou à primeira posição.

Quando parecia não haver modos de melhorar as condições para a conquista do campeonato, a diretoria, além de garantir a permanência de todos os jogadores até o fim da temporada, contratou o medalhão e ídolo da torcida, Vágner Love. Com um atacante de alto nível para substituir Keirrison, o título parecia próximo. Pela segunda vez no ano, o Palmeiras apresentava o melhor futebol do Brasil (não era um jogo de encher os olhos, como no primeiro semestre, mas muito eficiente). As vitórias fora de casa contra Cruzeiro e Santos fizeram os palmeirenses crer que o jejum de grandes conquistas estaria se encerrando.

Aí fomos surpreendidos novamente, justo na reta final do torneio. Três contusões e duas convocações fizeram com que o Palmeiras passasse a jogar um futebol extremamente medíocre, digno de times pequenos. O cão de guarda Pierre (fora por 12 jogos), que teve um grave problema no tornozelo, não foi o principal desfalque, já que tínhamos volantes substitutos à altura (Sandro Silva e Souza). O bicho pegou mesmo com a saída de Cleiton Xavier (por 5 jogos), que foi convocado para a seleção brasileira e, na sequencia, se machucou. Líder em assistências no campeonato, Xavier deixou o ataque órfão. Diego Souza, que não é especialista em armar jogadas (é praticamente um atacante mais recuado), ficou sobrecarregado, além de ter voltado da seleção muito mal. A perda de Maurício Ramos (por 10 jogos) na defesa foi (talvez) a mais sentida pelo conjunto do grupo. Não tínhamos zagueiros do mesmo nível para fazer a reposição. Lembremos que Maurício já estava entrosado com Danilo, formando uma das defesas menos vazadas da competição. Quem seria o substituto? O lento e pouco inteligente Marcão? O inexperiente Maurício Santos? O "se acha o melhor do mundo, mas é uma merda" Edmílson?

A zaga começou a vacilar muito e o meio campo não conseguia criar jogadas para o ataque. Muricy tentou voltar aos três zagueiros, mas não teve jeito. Vagner Love, na ânsia de resolver tudo sozinho, pouco fazia. A pressão por um título importante mexeu com a cabeça dos jogadores, que começaram a jogar de forma ainda mais medíocre. O final da história, todos sabem: briga entre jogadores do elenco (foto) e revolta da torcida. De virtual campeão brasileiro, o Palmeiras não chegou sequer a conseguir a vaga para a competição sul-americana mais importante.

Ficamos no quase, mas não, 2009 não foi um ano perdido. A base montada nesta temporada é boa e jovem, o técnico palestrino é experiente, campeão e sabe trabalhar a longo prazo. A equipe figurou, por quase todo o ano, como uma das melhores do Brasil. O trabalho não deve ser jogado no lixo. A lição que fica, apesar de óbvia, é que o elenco precisa se fortalecer. A diretoria do Palmeiras pensou que os reservas atuais dariam para o gasto, mas suas limitações só foram notadas na hora da necessidade. Mesmo atuando com um futebol pragmático, Muricy sabe da importância de uma uma defesa sólida. O time já tem bons atacantes, o que falta são defensores e armadores. Com mais dois zagueiros bons (podem até ser reservas), um meia de qualidade e um lateral-esquerdo que substitua o Armero sem comprometer, o Palmeiras será um dos concorrentes fortes aos títulos Paulista, da Copa do Brasil, da Sul-americana e do Brasileirão, em 2010.

Ah, e não custa nada contratar um psicólogo para o caso de os jogadores sentirem a pressão na reta final novamente.

Abaixo, uma breve análise do elenco (se você ainda tiver saco para ler). Os nomes em verde são para jogadores que devem continuar.

Marcos: continua fazendo milagres, apesar de estar velho. As falhas, principalmente em saídas estabanadas aumentaram.
Figueroa: o melhor lateral-direito aliviverde desde Arce. Aposto em uma grande temporada do chileno em 2010.
Maurício Ramos: é bom zagueiro. Foi um tanto atabalhoado no jogo contra o Botafogo (poderia ter evitado o segundo gol dos cariocas). Mesmo assim, jogou grandes partidas em 2009, como na vitória contra o Sport, na Ilha do Retiro, na primeira fase da Libertadores.
Danilo: é o melhor zagueiro do Palmeiras. Tem mais tranquilidade (não vai seco nas bolas) e maior noção de cobertura que os demais. Penso que pode até chegar à seleção brasileira daqui a algumas temporadas.
Armero: alterna ótimos e péssimos jogos. Ataca melhor do que defende. Precisa aprender a usar sua velocidade também para defender, além de treinar a precisão nos cruzamentos.
Pierre: o melhor volante do Brasil. Com a recuperação do ritmo de jogo, vai voltar a ser importante para o Palmeiras.
Edmílson: a grande enganação de 2009. Fala demais, se acha o melhor jogador do mundo, mas não joga nada. Se o seu time for jogar contra o Palmeiras, é só lançar uma bola nas costas do dito cujo que é gol certo. Saída de bola de qualidade? Só se for de vez quando, quando ele acerta lançamentos. Cansei de vê-lo cochilando e armando contra-ataques adversários. Edmílson, por favor, peça para sair.
Cleiton Xavier: é o verdadeiro meia do Palmeiras (Diego Souza atua mais como atacante recuado). Precisa se soltar mais, não ter medo de jogar, chamar o jogo e a responsabilidade. Quando faz isso, é um dos melhores do Brasil.
Diego Souza: seu principal problema é pensar que joga muito melhor do que realmente joga. Se atuasse de maneira mais simples, tocasse de primeira, colocasse a bola no chão, já estaria na seleção faz tempo. É verdade que o Diego prende a bola em momentos necessários, mas também faz isso quando estamos com pressa e mata nossos contra-ataques. Diego, mais simplicidade em 2010!
Deyvid Sacconi: mostrou que tem condições de ser titular do Palmeiras. Precisa de um pouco mais de confiança, assim como o Cleiton.
Vagner Love: fez um Brasileirão medíocre, é verdade, mas ninguém desaprende a jogar. Love é rápido e artilheiro, características difíceis de serem encontradas em um centro avante. Se o time atuar com três armadores, Vagner terá mais chance de aparecer e mostrar seu real futebol. Acho que ele ainda irá ajudar muito o Palmeiras no tempo que lhe resta até o fim do empréstimo.

Reservas:
Bruno: tá aprendendo, mas falhou em lances importantes, principalmente nos jogos contra o Corinthians.
Wendel: um bom reserva, tanto para o meio, quanto para a lateral.
Jefferson:
típica contratação do Luxa. Teve várias chances e não deu certo. Volte para o Guaratinguetá.
Henrique: outra contratação do Luxa. Jogou um jogo e não agradou. Pode vazar.
Marcão: é grosso e lento. Não vou ser injusto, já fez partidas boas, é verdade. Mas se o Palmeiras contratar um ou dois zagueiros boquetas, é melhor dispensá-lo.
Sandro Silva: alterna ótimos momentos com apresentações pífias. Mesmo assim, confio em seu futebol. É mil vezes melhor que o Edmílson.
Souza: tem tudo para ser o titular absoluto, ao lado de Pierre. Basta melhorar o passe.
Jumar: sorte que o Palmeiras já o negociou com o Vasco.
Willians: jogou bem no primeiro semestre, ao lado do Keirrison. Se eu fosse o Muricy, eu lhe daria outra chance.
Marquinhos: não conseguiu fazer sequer um gol em 2009. Só jogou bem em uma partida (contra a LDU, em que foi expulso). Para mim, já chega. Vaza.
Lenny: começou bem o ano, marcando 5 ou 6 gols em poucos jogos. Porém, novamente não manteve a regularidade.
Robert: tem sorte e é goleador.
Ortigoza: raçuco demais. Sabe usar o corpo bem melhor do que Obina e Robert, fazendo o pivô. Ainda será muito útil ao Palmeiras.
Daniel Lovinho: se eu fosse o Muricy, o emprestaria para o Oeste de Itápolis.

Portanto, o meu Palmeiras 2010, seria: Marcos; Figueroa, Maurício Ramos, Danilo e Armero; Pierre, Souza (Sandro Silva), Cleiton Xavier, Deivid Sacconi e Diego Souza; Vagner Love. O esquema é o 3-6-1, para que haja movimentação no ataque com três jogadores muito técnicos (Xavier, Diego Souza e Sacconi) e um centro avante rápido (Love).

Para finalizar, insiro o segundo gol mais bonito que pude presenciar nas arquibancadas do Palestra neste ano (não coloco o primeiro - Diego Souza contra a LDU - porque já o postei anteriormente neste blog). Deyvid Sacconi contra o Goiás:

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Metalinguagem: o maior post que já escrevi. Créditos das fotos, respectivamente: abril.com.br, 4.bp.blogspot.com e blog.estadao.com.br

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

Sons antigos, lembranças recentes

Músicas, ruídos e determinados sons nos acompanham por toda a vida, deixando suas marcas em momentos específicos.

As vibrações sonoras são sentidas até mesmo quando ainda estamos na barriga de nossas mães. Como afirma Mônica Ferreira Nunes, em seu livro "O Mito no Rádio", mesmo não entendendo o significado dos palavras, o timbre materno já demonstra sentimentos como raiva ou alegria para os "quase nascidos".

Canções que me acompanharam durante um dos melhores períodos de minha vida (o da minha primeira faculdade) foram criadas e executadas por um quarteto hippie denominado Novos Baianos. As sensações que me vêm à mente quando ouço o característico samba dançante misturado com guitarras são sempre boas.

A apresentação musical mais emocionante da minha vida ocorreu neste ano, na Virada Cultural de São Paulo. Assistir a performances dos velhos baianos novos, comemorando 40 anos de criação da banda, fez com que eu me lembrasse do tanto de pessoas especiais que eu conheci ao longo dos quatro anos que morei em Bauru. Muitas delas não se cansavam de dançar embaladas pelo vinil "Novos Baianos F.C." (pertencente à Xenya), o disco "titular" da república Maria Bonita.

No último fim de semana, um pouquinho desse sentimento foi reavivado com o show do Moraes Moreira, que acompanhei no Sesc Pinheiros. Nada que se compare às primeiras notas de "A menina dança", cantadas por Baby do Brasil, na Virada Cultural, mas inevitáveis lágrimas saltaram dos meus olhos, principalmente com "Acabou o chorare".

Engraçado é pensar que um punhado de músicas feitas nos anos 70 esteja tão relacionado (em minha cabeça) com fatos ocorridos entre 2005 e 2008, e com pessoas que nasceram em meados ou final da década de 80.

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Metalinguagem: eu estava em dúvida sobre o que postar. Pensei em comentar a música "O trem", do RZO, que achei espetacular e também falar sobre a ocupação relâmpago na assembleia legislativa do DF contra o mensalão do DEM (ironizando o fato de que a maioria dos ocupantes era do PT, que utilizou a mesma prática em 2005). Optei pelo tema acima por se tratar de algo que se eu não comentasse agora, iria passar despercebido em minhas prioridades e cairia no esquecimento, apesar de importante em minha vida.

quinta-feira, 26 de novembro de 2009

Rápidos comentários sobre a prova da primeira fase da Fuvest

Quando eu decidi concorrer a uma vaga no curso de Ciências Sociais da Universidade de São Paulo (USP), ouvi boatos de que o vestibular 2010 da Fuvest sofreria mudanças. O estilo seria parecido com o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), em que as perguntas mesclam conhecimentos das áreas estudadas no colegial, na tentativa de evitar contas inúteis e a tradiconal decoreba (que eu me lembre, isso nem sempre era alcançado pela prova, diga-se de passagem) (na foto, o nosso governador José Serra (PSDB)).

Nas nove primeiras questões do exame da primeira fase (que contava com um total de 90 testes) essa expectativa foi, de certa forma, preenchida. No restante, as velhas perguntinhas decorebas deram a tônica. O que era corveia na Idade Média? Onde está o erro ortográfico em um emaranhado de frases sem sentido? O manganês é produzido no Maciço do Urucum?

A prova da Fuvest valorizou o ensino fragmentado, cartesiano, descolado da realidade e que, obviamente, sustenta uma "indústria de cursinhos" congregados em três ou quatro grandes "marcas" que faturam muito pelo Brasil adentro. A relação entre tais instituições e os vestibulares públicos eu desconheço, mas é evidente que uma prova mais holística dificultaria o "método fast-food de ensino" empregado nos cursos pré-vestibulares.

A existência do afunilamento por si só já é elitista, pois as universidades públicas deveriam ser capazes de absorver todos os estudantes do ensino médio. Com uma prova que privelegia o armazenamento de conteúdos em vez de reflexão sobre eles, a Fuvest faz com que os alunos dos cursinhos, que utilizam fórmulas lúdicas, divertidas e mais "fáceis de guardar", deixem o pessoal da escola pública (caindo aos pedaços) cada vez mais para trás.

E parece que o rabo pós-moderno está mordendo o cachorro neoliberal no círculo vicioso do ensino fragmentado, já que o vestibular (principalmente o da Fuvest) pauta os conteúdos que devem ser aprendidos no ensino médio, quando o razoável deveria ser o contrário. Ao fim de 12 anos na escola, temos um pilha de conhecimento descartável que só serve para um exame, ultrapassado por pouquíssimos.
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Metalinguagem: não podemos esquecer da grande mentira que é o Prouni, que investe um dinheiro absurdo em universidades privadas em vez de abrir vagar públicas com direito à permanência estudantil para que todos tivessem acesso a um ensino razoável. Sobre a Fuvest, vamos ver se a segunda fase será um pouco diferente. Aí sim seríamos supreendidos.

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

Um talebã no trem

No último domingo eu fiz a prova da Fuvest e, por preguiça, acabei pernoitando em São Paulo. Porém, na segunda de manhã eu já voltava para a cidade das Flores (Suzano) via metrô/trem.

Da Consolação até Corinthians-Itaquera, a viagem transcorreu seu curso normal. Mas na estação Dom Bosco, uma mulher de estatura mediana, negra, aparentando 28 anos e que parecia estar com muito frio (apesar da temperatura amena) entrou no trem. Ela vestia o capuz embutido em sua blusa branca.

Havia poucas pessoas no vagão. Ela se sentou em uma das cadeiras do canto, onde permaneceu o mais encolhida possível.

Chegando em Guaianases (a estação seguinte), dois homens com uniformes das lojas Marabraz adentraram o vagão. Após se sentarem, olharam para a moça e começaram a rir. Olhei também e percebi que ela colocou outro"acessório" para se proteger do frio: uma blusa. A comicidade da cena se deu porque a proteção foi colocada exatamente na face. Ou seja, com o capuz na cabeça e a blusa cobrindo toda a cara, a moça estava parecendo uma tranquila múmia viajando de trem.

Na estação Antônio Gianetti Neto, já em Ferraz, um casal e mais um amigo (todos aparentando 20 e poucos anos) entraram no vagão e se sentaram próximos à tal mulher, sem notar a cena bizarra. Quando a olharam, um deles gritou:

"Meu Deus, um talebã!!"

Absolutamente todos no vagão começaram a gargalhar. Mas antes que os passageiros pudessem respirar, outro disse:

"Espero que ela só exploda o trem depois que ele chegar em Suzano. Não quero morrer aqui não!"

Aí sim (fomos surpreendidos?) todos começaram a gargalhar absurdamente. Os três jovens saíram de perto da mulher por não aguentarem os risos. Um dos caras com uniforme da Marabraz quase deitou no chão de tanto rir.

A moça, que já estava com a face totalmente coberta, se manteve impassível até Suzano, onde eu desci do vagão.

Se ela sentiu vergonha, não havia melhor jeito de se esconder.
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Metalinguagem: fazia um tempo que eu não falava sobre alguma história do trem.

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

A cereja do bolo anti-democrático da USP

No anti-democrático processo eleitoral para reitor da Universidade de São Paulo (USP), o governador José Serra (PSDB) (foto) colocou hoje a cereja no bolo.

Na maior universidade do Brasil, apenas 325 indivíduos (aproximadamente 90% pertencente à "casta" de professores titulares) puderam votar no segundo turno. Os três postulantes mais bem cotados tiveram seus nomes enviados ao governador. Quebrando a convenção de aceitar o professor escolhido pelos colegiados uspianos, Serra colocou no "trono" o segundo colocado da lista tríplice, o diretor da Faculdade de Direito, João Grandino Rodas. Assim, Serra mostra o quão ilusório é o processo eleitoral na USP.

O mais engraçado é como a direita consegue dizer que uma "eleição" dessas é democrática. Como exemplo, citarei algumas pérolas do nobre colunista Hélio Schwartsman, publicadas no artigo "Lista tríplice não lesa democracia", do caderno Cotidiano da Folha de quinta-feira.

O articulista inicia seu texto dizendo que a eleição direta é a pior das opções para a escolha de um reitor de uma universidade porque "além de favorecer enormemente o populismo - o candidato que prometesse acabar com as provas, por exemplo, ganharia preciosos pontos entre os estudantes -, o voto direto é essencialmente antidemocrático". Segundo Schwartsman, Serra, o representante do povo, está apto para escolher o reitor da USP.


Em seguida, o autor diz que o peso do voto dos professores deve ser maior porque "o aluno está na universidade apenas por quatro anos com o objetivo pragmático de obter o diploma".

(Na foto, o diretor Rodas fecha a Faculdade de Direito para evitar manifestação dos estudantes, em agosto)

Por trás da justificativa do injustificável, o colunista demonstra uma visão de ensino extremamente limitada, tanto ao valorizar a avaliação "decoreba" das provas, como ao supor que um candidato pudesse chegar a propor tal medida estapafúrdia, e também ao considerar a universidade como um mero local onde se retira o diploma para obter uma vaga no mercado de trabalho (assim como se retira um hambúrguer numa rede de fast food). Essas três pequenas colocações de Schwartzman sintetizam as ações que estão ocorrendo há algum tempo e devem aumentar com o novo reitor escolhido pelo tucano: a fragmentação do ensino, que se torna cada vez mais técnico e voltado para interesses comerciais, mesmo em universidades públicas. Outras coisas vêm de brinde, como a repressão.

Antes de fechar o post, é necessário lembrar da anticandidatura de Chico de Oliveira, levantada por alguns setores estudantis e de trabalhadores (que questionam a burocracia de certos pares) e do ato de funcionários e estudantes, ocorrido na terça-feira, que conseguiu adiar por um dia a realização do "pleito". Iniciativas que confrontaram a estrutura de poder elitista da USP.
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Metalinguagem: refletindo para escrever este post, foi inevitável lembrar das "eleições" para reitor e diretores da Unesp, em 2008. Um grupo de professores convenceu alunos a votarem em uma chapa teoricamente mais progressista para a direção da Faculdade de Arquitetura, Artes e Comunicação. Tais estudantes votaram maciçamente na chapa e, obviamente, não adiantou nada, pois o peso do voto estudantil é de apenas 15%.

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

Análise de uma propaganda partidária - parte 2


Zé Maria (PSTU) e Heloísa Helena (PSOL)

Não tenho muita base para fazer uma análise política sobre a propaganda de televisão do PSTU, veiculada em julho e "destrinchada" (ou quase isso) tecnicamente neste blog há algum tempo (leia aqui). Não li o programa do partido e meus conceitos sobre tal grupo se devem a impressões da época de movimento estudantil . Assim, apenas citarei os posicionamentos presentes em algumas matérias para depois me ater ao ponto principal de divergência (também superficialmente), explícito ao final do programa de televisão.

A propaganda mencionou rapidamente a intervenção assassina das tropas da Organização das Nações Unidas (ONU) no Haiti e denunciou que os soldados brasileiros não se portam de maneira diferente. Apesar de se tratar apenas de uma nota, a denúncia, pouco comum na mídia tradicional, tem sua importância e mostra uma posição crítica e à esquerda do PT de Lula.

Metade da programa contou com uma matéria elucidativa a respeito da crise econômica. Contrariando as posições da mídia tradicional, a peça mostrou (com embasamento) que a crise não está perto de acabar e que o governo federal optou por ficar ao lado das empresas em vez de prestar apoio aos trabalhadores. A matéria citou as greves organizadas em todo o Brasil e chamou a população à manifestação para a redução da jornada de trabalho. Novamente, uma posição crítica ao governo Lula.

Na parte final da propaganda, o ponto mais polêmico vem à tona: a submissão do PSTU ao PSOL.

Um dos membros da direção nacional convoca o PSOL para a criação de uma frente de esquerda, conciliando os dois partidos (mais o PCB) e apontando os medalhões de tais agremiações (Zé Maria e Heloísa Helena) para concorrerem aos cargos executivos nacionais em 2010.

Recentemente, com a ida de Marina Silva para o PV (partido que se alia frequentemente a DEM e PSDB), cogitou-se uma aproximação do PSOL com o PV para a disputa presidencial, hipótese ainda não descartada.

É estranha a postura do PSTU com relação ao partido de Heloísa Helena, como se o PSOL condensasse a grande massa dos trabalhadores brasileiros ou contasse com dirigentes com pensamentos políticos idênticos aos do PSTU, de modo que a tal aliança fosse inquestionável. Pela experiência de amigos que já militaram ou flertaram com a agremiação, e pela atuação política de alguns de seus membros, penso que o PSOL não passa de um novo PT, com o discurso da mudança, mas que tende a se adequar ao status quo o mais rápido possível. E também é um partido pequeno (maior que o PSTU, é verdade) com mais abrangência na classe média politizada.

De modo geral, considerei interessante as denúncias (mesmo que superificiais), mas critico a postura do partido por não entender onde o PSTU quer chegar com essa aliança, já que o PSOL parece tomar outra direção.
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Metalinguagem: acho que alguns amigos podem contribuir de maneira rica para esse debate. Créditos das fotos: Zé Maria (Folha) e Heloísa Helena (Uol).

sexta-feira, 16 de outubro de 2009

"Você está demitido"

Pois bem, assim como eu disse aqui que fui contratado por um jornal regional no mês de janeiro, revelo que serei demitido no fim de outubro (estou cumprindo aviso prévio em casa). Motivo: enxugamento da redação.

Na ocasião da postagem linkada acima, afirmei que eu teria a possibilidade de conhecer um pouco mais o contexto da minha formação inicial como indivíduo, mas com outros olhos, pois estes teriam sido muito mais abertos durante os anos de graduação em jornalismo, em Bauru.

Presenciei diversas situações de trabalho e cobri pautas muito distintas nesses dez meses de labuta diária. Não pretendo, nesta postagem, fazer um balanço das coisas boas e ruins da minha primeira experiência profissional. Apenas quero afirmar que a exploração foi o que mais me chamou atenção ao longo desse período.

Tal exploração teve dois canais mais evidentes, sob a minha perspectiva: a utilizada por políticos para formar currais eleitorais, passando a ideia de que eles são a única esperança de melhoria de vida a população pobre (e os jornais, utilizando recursos oriundos de editais, contribuem muito para isso); e a sofrida por mim no local de trabalho, onde horários eram extrapolados com frequência (sem compensação financeira), além da subestimação intelectual por parte de superiores hierárquicos.

A percepção sobre a exploração revela que a formação adquirida em Bauru (cuja maior parte não é oriunda das aulas, diga-se de passagem), foi preponderante, como eu havia previsto, para meus novos olhares por estas bandas. Juntando o caldo ideológico com o ano em minha cidade natal, como repórter, fiz duas escolhas para o próximo ano: estudar ciências sociais e morar em São Paulo.

Por mais complicada que possa ser a vida de quem estuda e trabalha (pretendo arranjar um emprego em São Paulo), a possibilidade de usar o cérebro com uma frequência maior, mesmo que isso não tenha nada a ver com felicidade (o estudo não é um meio de chegar a ela, e sim a maiores responsabilidades), me deixa com vontade de cantar, como os Novos Baianos, que...

"...Esse ano não vai ser igual àquele que passoooou, o que passsou".
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Metalinguagem: só escrevo sobre fatos extremamente pessoais, como o caso deste post, quando são reviravoltas importantes para quem acompanha os textos do blog - pois eles refletem o cotidiano.

domingo, 27 de setembro de 2009

Análise de uma propaganda partidária - parte 1

Esta postagem é uma análise técnica da propaganda abaixo, do Partido Socialista dos Trabalhadores Unificado (PSTU), veiculada no mês de julho, em todo o país. Vou me ater à parte técnica para demonstrar como ela precisa estar casada com o conteúdo que pretende defender para não cair em contradição. Pretendo falar sobre o teor das matérias num próximo post.



O programa tem início. De cara, já vemos uma bancada jornalística no estilo mais padronizado possível. Um casal de apresentadores. Ele de camisa e paletó e ela de tailler. Ambos indivíduos são brancos. O homem usa uma voz empostada, lembrando locuções radiofônicas.

Pausa. Aí já é possível determinar uma enorme contradição da técnica com o conteúdo. Numa propaganda de um partido que se diz socialista, a reprodução do estilo "Jornal Nacional" de apresentação é até aceitável por se tratar de uma plataforma amplamente conhecida do público (mesmo eu achando que uma simulação de conversa, algo mais "humanizado" teria mais a ver com tais ideais). No entanto, por que colocar dois apresentadores brancos e engomadinhos para falar? Uma das bandeiras do socialismo não é a igualdade entre todos os trabalhadores? O PSTU errou ao não destinar uma negra ou um casal negro para a apresentação, consagrando o padrão elitista da mídia convencional (um negro só vai aparecer uma vez - nos comentários da matéria para sobre a retirada das tropas do Haiti - enquanto uma repórter loira faz uma passagem em Brasília).

Dando prosseguimento, os apresentadores fazem a tradicional "escalada" e a vinheta de abertura mostra o logo do partido. Notamos um design bem "clean" em toda a propaganda. O branco prevalece. Ele está na bancada, em parte do fundo da tela e ao lado do gerador de caracteres. Considero válido alternar o vermelho, tradicional dos partidos mais à esquerda, com outras cores. Porém, acho que o PSTU errou novamente. Esse estilo clean é um tanto elitista, típico de propagandas de artigos de luxo e de condomínios fechados. Cores mais vivas trariam uma ideia mais popular, na minha humilde opinião (essa parte é puro achismo, não entendo nada de cores).

As matérias quebram a linearidade com a qual estamos acostumados. A opinião de dirigentes do partido é inserida entre entrevistas e offs dos locutores. Uma boa opção, pois trata-se de uma propaganda e a opinião deve estar bem explícita (o que poderia também estar presente na apresentação, se o caráter dela fosse menos sisudo). O auxílio tecnológico foi bem utilizado tanto nos infográficos (cerca de três vezes) quanto na parte final do vídeo, em que as cores vermelhas voltam a predominar e há um certo apelo emocional após a entrevista de Valério Arcary.

É louvável o esforço do PSTU em tentar fazer uma propaganda mais digerível aos telespectadores, afastando-se do "Contra burguês, vote dezesseis", famoso na década de 90, que dava a impressão de rebeldia pouco agregadora. O programa teve uma boa diversidade de vozes e não se tornou monótono. Porém, chega a ser engraçado um partido socialista buscar uma credibilidade nos padrões mais superados de jornalismo tradicional (que se diz isento, mas sabemos que não é), reproduzindo preconceitos da sociedade burguesa.
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Metalinguagem: a propaganda foi em julho, mas antes tarde do que nunca.

domingo, 13 de setembro de 2009

Descrição de um sábado atípico em Suzano


Às vezes eu trabalho aos sábados. Quando isso acontece, preciso acordar mais cedo do que em dias normais porque sempre tem um eventozinho oficial para cobrir por volta das 8 ou 9 da manhã (em dias de semana, eu entro às 11h). Ontem, no entanto, foi um pouco diferente. A pauta era à tarde.

"Dê uma passada nesse evento da praça Cidade das Flores", disse a minha editora. Era para eu aparecer por lá umas 17h.

A festividade se chamava "Roda de Todos os Santos". A ideia era fazer com que grupos de cultura popular da cidade se reunissem em uma marcha que iria do centro cultural até a praça. Lá, eles organizariam diversas rodas e o convidado especial, Antônio Nóbrega (o da foto), finalizaria a tarde com um show de frevo.

A matéria seria curtíssima, apenas uma fotolegenda. A editora queria garantir uma imagem chamativa para a capa (enganado os leitores, pois no interior do jornal, haveria poquíssimo texto). Mesmo assim, entrevistei o diretor cultural e fiquei sabendo que mais de 23 grupos culturais iriam participar: catira, congada, roda de samba, capoeira, taikô e kung fu (as duas últimas, tradições orientais) seriam algumas das atrações. A apresentação do Antônio Nóbrega começaria por volta das 20h.

Quase ao mesmo tempo, também de graça e na mesma Suzano (pasme!) ocorreria um show da banda Beatles Abbey Road (foto), que eu já tinha me programado para assistir. Abortei a ideia determinado a voltar à praça cidade das Flores.

Fui para a redação em Mogi das Cruzes (cidade vizinha) com o fotógrafo e o motorista do jornal. Escrevi uma matéria pequena e a fotolegenda. Estava liberado às 19h15. Cheguei em Suzano quase às 20h e Nóbrega já tinha começado o espetáculo.

Quando estudava em Bauru, eu tinha me acostumado a ir a shows no SESC em que eu e alguns amigos e amigas dançávamos ao som de ritmos brasileiros. Até nas festas de república (com as bandas Filha Solteira, Gnomus Verdes Fritos e Vai Brasil!) isso ocorria. Aqui em Suzano, só presenciei algo parecido uma vez. Nesta segunda oportunidade, a sensação de nostalgia foi inevitável.

Primeiramente, pela saudade que carrego de pessoas especiais. Quando uma ciranda de três camadas se formou, as lembranças de minhas queridas amigas Marjorie e Natalinha marejaram meus olhos e a dancinha que lhes é tão peculiar (por mim apelidada carinhosamente de dança do acasalamento) se fez nítida nos corpos de outras pessoas. Em segundo lugar, pelo estranho sentimento nordestino que tenho na minha própria cidade, como já tentei explicar aqui. A agitação de Nóbrega fez tudo isso se aguçar, mesmo que por poucos minutos.

A pipoca com queijo e amendoim torrado, seguida de uma boa garapa deram um ar infantil ao início da noite, que só foi terminar ao som do fab four tupiniquim (me trazendo lembranças de Vanessa e Thiago).

Ô sardade!
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Metalinguagem: e a saudade não é só das pessoas, mas da vida que levávamos. Como diz o título, um post descritivo.

sexta-feira, 4 de setembro de 2009

Trago Comigo uma crítica

(cena do seriado Trago Comigo, de Tata Amaral)

Na terça, liguei a tevê na Cultura. O programa Metrópolis exibia uma matéria sobre a nova série (em 4 capítulos) da emissora que estrearia em poucos instantes. "Trago Comigo" é a história de um ex-guerrilheiro e ex-diretor de teatro que, ao dar uma entrevista para um documentarista, descobre ter apagado momentos cruciais de sua história como militante da esquerda revolucionária no Brasil dos anos 60 (estilo "Valsa com Bashir" no quesito esquecimento). Para tentar recuperar a memória, a personagem de Carlos Alberto Ricelli resolve dirigir uma peça sobre sua própria vida, com jovens atores.

Não tenho muito embasamento para analisar filmes, muito menos séries. Mesmo assim, dou meu pitaco: gostei do fio condutor da história. Apesar de haver romances "novelescos", um pouco de exagero para que certos clímax ocorressem (dispensa de Miguel Jarra da peça e suposta desistência de Telmo em realizar o espetáculo) e a previsibilidade de certas cenas, o gancho central foi original: o processo de produção de uma peça em que o diretor é ex-guerrilheiro e os atores são jovens alienados.
Não se trata de uma série sobre uma peça de teatro, mas sobre o processo de produção de tal peça (e isso faz muita diferença). À medida em que o diretor Telmo (Ricelli) força sua memória e adapta as lembranças às cenas, surge a necessidade de passar os sentimentos revolucionários aos cinco jovens atores (um alienado protagonista de novelas, uma negra, um morador da periferia e um casal classe média).

Dúvidas surgem nas cabeças da nova geração: por que um jovem de 20 e poucos anos reprimiria seus desejos sexuais? Por que ele correria riscos assaltando bancos? Por que viveria na clandestinidade? Por que suportaria horas das mais cruéis torturas? Telmo precisa usar de comparação para responder aos atores. "Nós não fazíamos essas coisas para comprar um tênis novo ou para ter um cabelo estiloso. Nós tínhamos um ideal".

O ideal não era tão consciente, como o próprio desenrolar da história mostra. O amor foi o responsável por levar Telmo à guerrilha armada. Ele não era da vanguarda, não tinha embasamento suficiente para saber se era leninista, trotskista ou maoísta (como a maioria dos guerrilheiros brasileiros da época, penso eu, mesmo podendo estar enganado). Porém, ele não perdeu o bonde da história.

Críticas sutis também são feitas, como o fato de não haver negros nem "manos" entre os guerrilheiros. "Que grupo mais elitista", comenta a personagem Mônica, par romântico de Ricelli.

A estabilização no cotidiano classe média tomou conta da vida de Telmo após a tortura, o que também ocorreu com Braga (dono do teatro que o convida a fazer nova montagem). Esse fato caracteriza que as divergências ideológicas entre as gerações acontecem apenas quando o passado é evocado. Os mais novos (atores) são alienados. Os mais velhos (diretor e dono do teatro) deram o braço a torcer para a vida burguesa e "colhem os louros" da desgraça que sofreram. Outro fato verossímil, pois a imensa maioria desses "heróis" do passado são grandes piadas políticas nos dias atuais, como Gabeira, Genoíno e Dirceu.

Na prática, a diferença é que os mais velhos têm uma bela história.
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Metalinguagem: há outros mil elementos que eu poderia analisar, mas eu me alongaria muito. Atentei-me ao que considerei mais importante. Nem se trata de uma crítica, mas pensamentos que surgiram após a apreciação da obra. É possível assistir a todos os episódios por meio deste link.

quinta-feira, 27 de agosto de 2009

O que é isto, o fichamento?

Na faculdade de jornalismo, logo no primeiro semestre, eu tive aulas de Filosofia com o simpático e polêmico professor Clodoaldo Cardoso, esse da foto aí do lado.

Pra ser sincero, lembro de poucas coisas daquela disciplina.

Mas uma delas me marcou: a valorização do fichamento.

O professor Clodoaldo não aplicava provas, mas exigia fichamentos dos textos que indicava aos alunos, além de um seminário ao final do semestre. Esses fichamentos não eram simples transposições resumidas de escritos de filósofos consagrados, eram reflexões.

Só fui perceber isso após a realização do meu primeiro fichamento. Passei um fim de semana inteiro na labuta. Entreguei o trabalho no início da semana. Na aula seguinte, Clodoaldo disse para eu refaze-lo, diminuindo a quantidade de páginas e relacionando o que foi apreendido nos textos com experiências pessoais. Em outras palavras, ele disse: pense.

Anos depois, isolado em Suzano, trocando ideias relevantes com grandes amigos apenas pela interface do computador (salvo raras exceções), o fichamento de livros e textos (e não apenas a leitura) está sendo um parceiro no desafio de pensar, algo tão combatido pela socidade atual.
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Metalinguagem: a preguiça e o tamanho dos textos anteriores me fizeram reduzir os caracteres neste daqui.

terça-feira, 18 de agosto de 2009

O porquê da minha certeza de que o Palmeiras será o Campeão Brasileiro 2009

O título é sensacionalista (foi só para te fisgar, leitor, hehe). Apesar do meu desejo, acho que o Palmeiras tem poucas chances de vencer o Brasileirão.

Mas os fatores que me dão esperanças dpara continuar torcendo são o acaso e a motivação, por mais clichê que isso possa soar (estou praticamente falando que futebol é uma caixinha de surpresas, mas explico).

Um dos técnicos mais vencedores da recente história do futebol brasileiro, Vanderlei Luxemburgo, ficou famoso por exaltar o "planejamento" e o "profissionalismo" em suas temporadas à frente de grandes equipes. Lembro-me de episódios em que o treinador esqueceu de estimular os jogadores e levou em conta apenas a parte tática de partidas decisivas. Acabou derrotado (Exemplos: Olimpíadas de Sidney, em 2000, quando o Brasil tinha dois jogadores a mais e Luxa teve uma conversa meramente técnica no intervalo; e o episódio em que o técnico humilhou o goleiro Marcos por tentar fazer um gol de cabeça contra o Grêmio, no Brasileirão 2008). Sobre o dito profissionalismo, Vanderlei ficou conhecido por ser um dos técnicos mais mercenários do futebol.

Já o tricampeão brasileiro, Muricy Ramalho, riu das palavras entre aspas no parágrafo acima, quando entrevistado em seu primeiro dia de trabalho com o manto palestrino, dizendo que "isso não existe".

Futebol não é uma partida de Brasfoot, onde só existem os fatores força e cansaço. O acaso e o lado motivacional tem papel preponderante no esporte e são (talvez) mais importantes do que a qualidade técnica (o Avaí que o diga).

Posso estar falando um monte de obviedades, mas se faz necessário estabelecer um paralelo entre a ridícula tentativa de se traçar um planejamento num jogo de xadrez com peças humanas (parafraseando meu amigo Bulhões), como o futebol, e o pensamento cartesiano de se teorizar o 'inteorizável", como é comum em algumas vertentes das ciências humanas (áreas da comunicação aí inclusas), tentando fazer com que o acaso seja mais previsível.

Paradoxalmente, se considerarmos que Mané é o acaso e João é a ciência cartesiana, saberemos o resultado de antemão.


______________________ Metalinguagem: não estou desvalorizando o estudo científico, mas é necessário ter consciência de suas limitações e dos "estragos" que o acaso pode causar. Também não dei exemplos sobre as áreas "inteorizáveis" da comunicação, mas depois falo sobre isso.

quinta-feira, 13 de agosto de 2009

Suzano Nordeste

O texto abaixo foi escrito há cerca de três meses:

Acabo de assistir ao filme "Viva São João" (foto), de Andrucha Waddington, no qual o cantor e ex-ministro da Cultura, Gilberto Gil, apresenta (de forma bem superficial, diga-se de passagem) as raízes culturais da comemoração mais tradicional do Nordeste brasileiro: a Festa de São João. Neste texto, não irei me ater a detalhes da produção cinematográfica ou da festa em si; falarei sobre as sensações que o filme me causou.

Eu sou paulista, nascido na pouco conhecida Suzano, a 40 km da capital. Por tal proximidade com a megalópole, minha terra fica no limbo entre capital e interior, a chamada região metropolitana. Portanto, em Suzano, há carcterísticas geográficas comuns a bairros periféricos de São Paulo ao mesmo tempo em que certos hábitos comuns a cidades pequenas são praticados.

Dentre as características de cidade grande, Suzano tem um punhado de fábricas, que além de ter deixado a cidade famosa pelo mau cheiro, trouxe muita mão de obra barata. Assim como na capital, a grande maioria da massa de trabalhadores é oriunda do Nordeste.

O meu contato com os nordestinos se deu a partir da forma mais conservadora de distribuir a renda, como diria Milton Santos: a empregada doméstica que trabalha em casa há muitíssimos anos, a Josefa da Silva, conhecida como Zezé (foto), é nascida em Caruaru-PE. Ela começou a prestar serviços em minha residência após minha mãe ter cometido um ato de certa forma interiorano: Zezé tocou a campainha e ofereceu sua mão de obra. Mesmo sem conhecê-la, minha mãe aceitou. Assim, sempre de modo descontraído e detalhista, Zezé trouxe incontáveis histórias do Nordeste brasileiro para a mesa de casa. Exemplos de que me recordo agora: vezes em que foi obrigada a lavar as panelas da casa de seu pai com areia, a fuga da residência para poder se casar e o susto que tomou em sua "primeira vez" (ela não sabia o que fazer, pois não teve a mínima educação sexual).

Mas as histórias não são apenas de Caruaru. Zezé mora em Suzano há mais de 20 anos e conta muitos causos da vizinhança de uma humilde família da periferia, habitante de uma cidade que fica no limbo entre capital e interior e cujos membros trabalham em fábricas transnacionais. Com os demais habitantes da localidade, eles reivindicam asfalto, legalização das terras, participam da associação de moradores, dançam forró, jogam bola na várzea, compram móveis nas Casas Bahia e conhecem os assassinados e os assassinos das páginas policiais dos jornais locais.

Talvez por tudo isso que eu tenha sentido vontade de chorar quando assisti a uma apresentação da Banda de Pífanos de Caruaru (foto), há alguns anos, em Suzano (escrevi sobre isso - leia aqui). A cantora paulistana (mas de raízes nordestinas) Cris Aflalo também fez um show na mesma ocasião. Isso misturou meus sentimentos paulista, nordestino, suburbano, suzanense, brasileiro e até mundial (principalmente após ter apreendido alguns conceitos de classe).

"Não sou brasileiro, não sou estrangeiro. Não sou de nenhum lugar, sou de lugar nenhum", escreveu Arnaldo Antunes, na letra da música "Lugar Nenhum". Sabiamente, ele disse só ter tido capacidade de escrever tais versos por ter nascido em São Paulo, uma cidade cheia de contrastes.

É assim que sinto o Nordeste em mim. Contraditoriamente, o Nordeste que conheço tão pouco é parte fundamental da minha constuituição como pessoa. Só sou como sou por ter nascido em Suzano, na nordestina Suzano.

Esse Nordeste é meu. Esse Nordeste é Suzano também.
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Metalinguagem: assim como o anterior, esse post foi bem ruminado.

segunda-feira, 3 de agosto de 2009

Aniversário

Estou tentando escrever este post desde o início da semana. Por se tratar de algo extramente pessoal (temática pouco comum neste blog), exitei por alguns dias, mas agora está aí, vomitado e com um caráter de diário pessoal.

Domingo, dia 2 de agosto, foi meu aniversário.

Eu não gosto de aniversários. Sinceramente, fico com uma vontade muito forte de chorar e a confusão de sentimentos é intensa de tal forma que eu nunca sei qual é o motivo predominante para a queda das lágrimas.

Isso ocorre desde os meus 15 anos.

Neste 2009, a razão do choro é menos difusa.

A rotina de um trabalho alienante e tolhedor de potencialidades me deixa cada manhã mais triste. Pelo menos eu percebo mais claramente como se dão as relações desiguais de trabalho na sociedade capitalista (tão discutidas com amigos em repúblicas e mesas de bar). Porém, alegria individual não tem nada a ver com isso.

Aliás, os debates expressos entre os parênteses do parágrafo acima fazem mais falta do que tudo. A vida em uma cidade onde as amizades antigas não te contemplam mais, as discussões se limitam a futebol, falar mal do trabalho e necessidades fúteis de consumo me angustiam. É tudo muito diferente do ambiente universitário com o qual estive integrado durante 4 anos. Discussões e trocas de ideia, só no mundo virtual ou em raros encontros com grandes amigos, nos parcos sábados livres.

O meu alento fica nos livros, onde tento adquirir mais embasamento para a vida e para entender o que quero dela, quando não estou cansado por causa do trabalho. Só tenho certeza de que a rotina que levo atualmente não irá durar por muito tempo.

Se você, raro leitor, perguntar se eu me sinto decepcionado, digo que não, pois sempre soube que este ano seria difícil e que o trabalho para grupos de mídia tradicional não me estimularia nem um pouco. Mas não, não estou nada satisfeito.

Espero, pelo menos, que essa fase ruim valha como experiência para sedimentar minhas convicções a fim de que as ações futuras sejam mais condizentes com os pensamentos que possuo.

Enquanto esse tempo não chega, aos 24 anos, sinto-me com 34.
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Metalinguagem: o primeiro parágrafo contempla esta seção.

quarta-feira, 29 de julho de 2009

A crise e uma de suas consequencias esquecidas

Dizem os empresários otimistas que o período de crise passou e que agora é preciso pensar no "pós-crise", afinal, o Brasil pode crescer até 1% este ano, segundo Guido Mantega (foto), chutando a estagnação prevista há pouco.

O engraçado é que os jornalões, os jornalecos e seus analistas se prendem aos números do binômio crise-demissões, sem verificar as consequencias que essa relação proporciona às pessoas de carne e osso.

Para ser prático, cito um caso que deixou meus colegas de trabalho um tanto assustados: nesta terça, na principal rua do comércio suzanense, (rua General Francisco Glicério - foto) uma atendente de 32 anos foi baleada em plena luz do dia após sacar R$8 mil em uma agência bancária. Ela foi perseguida por dois assaltantes. Por ter reagido, acabou sendo baleada.

Uns podem dizer: "Ah, ela vacilou, não se pode tirar uma quantia tão alta". Sim, é verdade, mas não se trata de um caso isolado. Nesta matéria sobre o ocorrido, há um intertíulo em que os comerciantes da cidade expõe sua indignação com relação ao grande aumento da violência na região (a de maior concentração financeira da cidade) nos últimos meses.

Ontem mesmo, indo para o trabalho (na rua em que ocorreu o crime citado), fui alvo de uma cena pouco comum, pelo menos nos seis meses que estou trabalhando em terras suzanenses: um cara me parou na rua e perguntou se eu tinha "perdido" um relógio. Provavelmente era roubado e ele queria me vender.

No assassinato ocorrido em Suzano, a mídia local coloca a culpa na falta de monitoramento eletrônico e no pouco número de guardas rondando o centro da cidade. Assim, esquecem-se do que os jornalões também fingem esquecer: a criminalidade aumenta com o desemprego.

Ah, é que eles não podem se contradizer, pois "a crise já é passado" e o recente aumento no número de roubos e furtos na cidade seria apenas uma "coincidência", que deve ser combatida com repressão.

A crise está só no começo e os jornais não exergam o desdobramento mais evidente.
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Metalinguagem: com base no Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged), a cidade de Suzano e toda a região do Alto Tietê têm apresentado perda de postos de trabalho desde o início do ano. Apesar de haver recente redução das demissão, elas ainda superam as contratações. Créditos das fotos - Mantega: globo.com; rua de Suzano: mixsaopaulo.com.br

quinta-feira, 23 de julho de 2009

O estupro diário

Depois de ter entrado duas horas e meia mais cedo e ter saído três horas mais tarde no trabalho, estou sem a menor vontade de escrever. Portanto, serei breve.

Enquanto eu voltava para a casa, fiquei pensando em letras de música. No momento em que cheguei, olhei para o aparelho de som e, devido à raiva e ao abatimento adquiridos por motivos óbvios, resolvi ouvir um disco do Nirvana chamado "In Utero".

Baseado na livre interpretação, a música "Rape me" (que em português significa "Estupre-me") nunca fez tanto sentido para mim.

As degradações físicas e psicológicas (principalmente) que ocorrem no ambiente de trabalho têm muitas semelhanças com um estupro.

Abaixo, a letra da música traduzida. Mais abaixo ainda, um vídeo da canção.

Rape Me (tradução)
Nirvana

Composição: Kurt Cobain
Estupre-Me

Estupre-me, estupre-me meu amigo
Estupre-me, estupre-me novamente

Eu não sou o único yeahEu não sou o único yeah
Eu não sou o único yeah
Eu não sou o único

Odeie-me, faça e faça novamente
Prove-me, estupre-me meu amigo

Eu não sou o único yeah
Eu não sou o único yeah
Eu não sou o único yeah
Eu não sou o único

Minha fonte interna favorita
Eu vou beijar suas feridas abertas
Apreciar sua preocupação
Você sempre federá e queimará.

Estupre-me, estupre-me meu amigo
Estupre-me, estupre-me novamente

Eu não sou o único yeah
Eu não sou o único yeah
Eu não sou o único yeah
Eu não sou o único

Estupre-me (x9)



________________________Metalinguagem: e um detalhe: o meu trabalho é bem leve comparado com o do restante da população. A tradução foi tirada do letras.mus.br.

segunda-feira, 20 de julho de 2009

O sorriso bobo do Loki

Depois de conversar a respeito de bandas dos anos 80 com alguns amigos, resolvi escutar novamente o disco "Dois", da Legião Urbana. Fazia tempo que eu não prestava atenção na história de amor de "Eduardo e Mônica" (um boyzinho e uma garota "alternativa").

A afeição de Mônica pela banda os Mutantes foi um dos atributos que seduziu o rapaz.

(Em 99, quando comecei a ouvir incessantemente as músicas da Legião, eu sequer imaginava quem tinham sido os Mutantes. Porém, em 2008, eu tinha uma banda cover de Mutantes)

Mas por que eu estava falando sobre isso? Ah, sim. Assisti ao filme "Loki", de Paulo Henrique Fontenelle, que retrata a explosiva trajetória do mais brilhante integrante d'os Mutantes: Arnaldo Dias Baptista.

Arnaldo era um menino brincalhão. E com um sorriso meio bobo, divertia-se viajando em seu contrabaixo elétrico. Numa molecagem, misturou rock com samba (ei João!), causando fúria nos conservadores da sala de jantar (ei José!). De bobo, só tinha o sorriso, pois não teve medo de brincar de amor nem de criar o dia 36.

A rotina, uma forte decepção amorosa e o vazio dos prazeres fugazes fizeram o menino perder o sorriso fácil. Estaria ele crescendo e se apegando às coisas materiais? "Loki" (o disco de 74, não o filme) é um retrato formidável da mais pura angústia. Um disco de rock sem guitarra. Possivelmente, a tentativa de demonstrar a falta de sentido em seu mundo.

Na lucidez mais serena de quem já passou três vezes pelo hospício e tinha pavor de morrer trancafiado numa camisa de força, o loki Arnaldo se joga de um prédio e, milagrosamente, volta a ser menino. Torna-se mais amigo das crianças, dos velhos e dos animais. Recupera a ingenuidade dos pequenos, sem esquecer a vivência da "primeira juventude". As sequelas, que deveriam ser um peso, transformam-se em uma ferramenta para descobrir a simplicidade que havia se perdido em sua vida. O sorriso bobo e fácil está de volta aos mutantes lábios.

O filme em si, além de mostrar relatos de uma história fantástica (líder de uma das maiores bandas de rock do mundo se joga de prédio e sobrevive), acerta pela sesibilidade de escolher como fio condutor a manufatura de um quadro produzido pelo próprio Arnaldo. Com uma arte infantil que não se preocupa com o prestígio das técnicas de pintura consagradas, Baptista exprime sua trajetória na tela.

No quadro, estão os Mutantes, o amor por Rita Lee, as drogas, as inovações musicais, os amigos, a loucura, as sequelas. Ao lado da obra está um senhor, um menino sem medo de pular, brincar e gritar:

"Eu não tô nem aí pra morte. Eu não tô nem aí pra sorte"...

... e com um bobo sorriso no rosto.
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Metalinguagem:

quinta-feira, 16 de julho de 2009

O Porta Curtas e o "Meow"

Eu conheci o Porta Curtas na faculdade, por meio da professora Adriana Nogueira, enquanto eu cursava a disciplina de Telejornalismo II, relacionada com a produção de documentários.

Confesso que, à epoca, não dei muita bola. Entrei uma ou duas vezes para procurar algum curta que tivesse a ver com o nosso megalomaníco projeto, mas nem chegava a assistir a um filme completo.
Agora, como estou com uma certa "coceira" de fazer um documentário, tenho entrado sempre no site e descoberto muita coisa boa.

O curta abaixo (uma animação chamada "Meow" e dirigida por Marcos Magalhães) é um dos que mais gostei. Trata-se da história de um gato que é repentinamente obrigado trocar seu leitinho por uma certa marca de refrigerantes (em termos metafóricos, é possível fazer algumas interpretações sobre o papel do gato e das "mãos" que o alimentam, mas deixarei isso para uma próxima postagem). Reparem na caracterização da cidade no "plano sequência" inicial, principalmente nos tipos que são obrigados a fugir da polícia:



Veja em boa qualidade neste link

"Se acostumou sem querer ao salto alto, salário baixo e à vida dura" diz a letra da música "Vida Diet", composta por John Ulhôa e presente no belíssimo disco "Toda Cura Para Todo Mal", do Pato Fu, lembrando que, se vivermos por inércia, "a gente se acostuma a tudo, a tudo a gente se habitua".
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Metalinguagem: também indicaria os curtas A Pessoa É Para o que Nasce, que deu origem ao longa homônimo de Roberto Berliner; Uma Saída Política, de Arnaldo Galvão, outra engraçada animação a respeito do papelão que fazem os políticos em época de campanha; e Cartão Vemelho, de Laís Bodansky, que apesar de machista em certo sentido, foge do moralismo.

terça-feira, 14 de julho de 2009

Baile Funk? Só para ricos

Imagine o Antônio Ermínio de Moraes, o Eike Batista e o Roberto Justus conversando tranquilamente numa mega festa para 500 pessoas promovida por Luciano Huck, na Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro. Todos felizes, contentes, bebendo e comendo do bom e do melhor, quando, de repente, um policial do BOPE chega quebrando tudo e e gritando:

-Pode parar essa festa, porra!!! Vocês não têm autorização pra fazer essa merda!! Vocês não comunicaram o número de convidados às autoridades e, pelas minhas contas, os banheiros dessa porra são insuficiente pra todo mundo. Sem contar que essa musiquinha americana que vocês ouvem é a mais pura bosta!!!

Situação inconcebível, não é verdade? Só redigi esses dois parágrafos iniciais para ajudar a ilustrar a mais nova prova de como o Brasil é separado entre ricos e negros...digo, pobres. O que jamais ocorreria em qualquer festa dos ricaços é realidade nos morros cariocas. A Polícia Militar do Rio proibiu a realização de bailes funk em áreas violentas da cidade, a partir de ontem.

O motivo alegado: a lei.

Veja o que ela determina, de acordo com o site da Folha: "Segundo algumas normas da lei estadual 5.265, de autoria do ex-deputado e ex-chefe de polícia Álvaro Lins, para realizar um baile funk é necessário pedir autorização com 30 dias de antecedência, ter comprovante de tratamento acústico, ter um banheiro químico para cada 50 pessoas e câmeras no local, além de outras regras".

Em outras palavras, a lei torna ilegal qualquer baile funk fora das boates da área nobre da cidade, já que quem mora no morro não tem condição financeira de cumprir todas as determinações legais. Sem entrar no mérito da concepção do funk ou do que ele representa em termos de culto ao corpo, machismo, etc., esse ato da polícia se configura pura e simplesmente em preconceito.

E tem gente que acredita que vivemos numa democracia (com liberdade de expressão).
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Metalinguagem: além da notícia, minha outra inspiração foi o documentário "Blue Eyed", de Bertram Verhaag, que filma um workshop da professora estadounidense Jane Elliot. Nesse workshop, ela faz um exercício em que todos os participantes com olhos azuis são ridicularizados, considerados inferiores e humilhados. A ideia é fazer a pessoa sentir na pele, por duas horas, o que os negros sentem a vida toda. Crédito da foto: globo.com.

sexta-feira, 10 de julho de 2009

Diferenças geográficas entre favelas

(Ferradura, a maior favela de Bauru: o bairro existe há 15 anos e não tem asfalto. Em Ferraz, no Alto Tietê, a Vila Ayda tem pavimentação, mas os moradores correm o risco de despejo por ocuparem uma área da Companhia Paulista de Trens Metropolitanos)

Uma das experiências mais ricas que tenho como jornalista, aqui no Alto Titê, é visitar as ocupações urbanas ilegais que existem na periferia dessas cidades.

As visitas são muito rápidas, portanto, superficiais. Não me envolvo com a comunidade em questão e sequer sinto na pele seus problemas. Apenas ouço relatos e vejo manifestações. Mas com isso, é possível fazer certas comparações.

Apesar de ser garantido na constituição brasileira, o direito à moradia não existe no Brasil. Pelo contrário, é um modo de se comprovar que a nossa democracia não passa de uma grande piada. O fator econômico e a divisão extremamente desigual das propriedades empurra os pobres para reservas de mananciais ou terrenos de encostas, que também pertencem às elites locais. Sem escolha, as áreas são ocupadas. Alguns conseguem a escritura com muito sacrifício para continuarem morando em locais totalmente esquecidos pelo poder público, sem o mínimo aceitável de infraestrutura. Outros, são despejados como "invasores".

De forma empírica e com um pingo de teoria (o livro de Milton Santos, chamado Manual de Geografia Urbana), encontrei algumas diferenças entre as ocupações urbanas no interior e na região da grande São Paulo. O meu conhecimento interiorano é baseado nas visitas que eu fazia ao Ferradura, maior favela de Bauru, quando eu participava da construção de um jornal comunitário em tal bairro, além de certa noção superficial sobre outros bairros periféricos da cidade. Portanto, quando eu disser interior, entenda-se por Bauru. No Alto Tietê, como eu já disse, as visitas a regiões periféricas, como repórter, são minha base . Assim, faço três constatações, com respectivos exemplos:

-O poder público concede mais benefícios na Grande São Paulo: de maneira reformista e eleitoreira, os governos asfaltam e colocam galerias em terrenos onde há ocupações irregulares, coisa que nunca vi (nem ouvi falar) que tivesse ocorrido em Bauru. O maior acesso a recursos financeiros e menor extensão territorial das cidades do Alto Tietê podem facilitar tal trabalho. Ex: o negócio é tão interesseiro, que os políticos chegam a asfaltar ruas que sabem que serão desapropriadas, como acontece na Vila Ayda, em Ferraz;

-As associações de moradores são mais organizadas: poucos bairros de Bauru, que eu me lembre, tinham associação de moradores ativa. Aqui, poucos não têm. Talvez isso tenha ligação com o tópico acima. Como é mais fácil receber certas migalhas por estas bandas, a organização das pessoas dá mais resultados, mesmo que eles sejam ilusórios. Ex: no bairro de Palmeiras, em Suzano, a associação pediu asfalto ao prefeito, que cumpriu o prometido, pavimentando as ruas com material de péssima qualidade. Porém, como não havia nada antes, os moradores se contentaram;

-O número de "barracos" no interior é muito maior: grande parte das habitações que visitei no Alto Tietê é de alvenaria, fato pouco comum em Bauru. O subemprego na região de São Paulo é mais bem remunerado, o que permite a qualidade um pouco melhor das construções. Ex: conversando com um dos motoristas do jornal em que trabalho, quando estávamos num bairro periférico de Ferraz, ele constatou que a cor que predominava na paisagem era a laranja dos tijolos das casas recém construídas, mas sem acabamento.

A "coisa tá braba" para os dois lados, mas diferenças existem. As reivindicações da população pobre da periferia da grande São Paulo são muito específicas. As associações de moradores reivindicam direitos pontuais e as vinculações que possuem são geralmente com partidos como o PT, que dimiuíram muito a capacidade de mobilização popular nos últimos anos (como explica este belo artigo). No interior, por sua vez, o contato das pessoas pobres com partidos, sindicatos e associações é bem menor. Apesar da condição de vida ruim, algumas migalhas do governo federal (estilo Bolsa Família) fazem o papel de amansar o povo.
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Metalinguagem: não costumo escrever textos longos para não cansar o raro visitante deste blog, mas dessa vez não teve jeito.

terça-feira, 7 de julho de 2009

Bolo mais duro que pedra

No início da tarde de hoje, fui até a casa do "seu" Antônio Carlos, operador de empilhadeira e morador do Parque São Francisco, na periferia de Ferraz de Vasconcelos.

Ele fez uma reclamação para o jornal em que trabalho a respeito da promessa não cumprida pelo prefeito eleito de pavimentar a rua da casa dele, que é muito íngrime. A falta de pavimentação, obviamente, causa problemas. Um dos mais graves é a impossibilidade do caminhão de lixo descer a rua.

No Brasil e no mundo, devem existir mil histórias como essa (de políticos que prometem e não cumprem). Porém, o relato do Antônio Carlos se atentou a detalhes que revelam a falsidade e tornaram a entrevista muito engraçada. Confesso que comecei a gargalhar no meio da conversa. Aí vai um trecho de algo que consigo me lembrar:

"Em época de eleição, todos os candidatos vêm até aqui, apertam a mão de todo mundo, entram na casa das pessoas. A gente oferece um bolo de fubá mais duro que pedra e eles comem e acham gostoso. A gente serve um café amargo e frio, eles acham muito bom. Eles veem uma criança recém nascida e pegam no colo. O menino pode estar remelento, sujo, eles não ligam, falam que a criança é linda.

Depois da eleição, eles nem aparecem".
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Metalinguagem: a história de pegar criança no colo é velha, masa a do "bolo-pedra" eu nunca tinha ouvido.