Mercy Zidane: junho 2014

quinta-feira, 26 de junho de 2014

John Lennon cantaria: "Libertem Fabio, libertem Rafael"


Em 1969, nos Estados Unidos, um ativista foi detido por portar dois cigarros de maconha. Cerca de dois anos depois, em 1971, ele serviu como bode expiatório para a cada vez mais lucrativa "guerra às drogas", que ocorre até hoje por terra yankees: houve julgamento e ele pegou nada menos que dez anos de prisão.

O caso absurdo gerou uma grande campanha democrática para a libertação imediata do ativista, que atendia pelo nome de John Sinclair. John Lennon, que morava nos Estados Unidos à época, compôs uma canção com o nome do rapaz para fortalecer a mobilização.

A música, que ajudou a libertar o ativista alguns dias depois, tem versos como (em tradução livre):

-"Não é justo, John Sinclair / Preso por respirar ar";
-"Se ele fosse da CIA / Vendendo drogas para ganhar dinheiro / Ele estaria livre / Iriam deixá-lo viver / Respirando ar como eu e você";
-"Ele foi preso pelo que fez / Ou representando todos?"

Apesar do contexto bem diferente (países, momento histórico, motivação, etc.), há pontos em comum entre o caso descrito e o que aconteceu com as prisões arbitrárias de Fabio Hideki Harano e de Rafael Marques Lusvarghi, no último protesto contra a Copa do Mundo, aqui no Brasil, no dia 23 de junho. Quando fiquei sabendo da história, foi a canção de Lennon que veio à minha cabeça, até porque a prática repressiva e as táticas de criminalização da polícia dos poderosos têm se modificado muito pouco ao longo das últimas décadas em todo o mundo.

Para que não haja brecha para confusão, o flagrante inventado pela polícia nada tem a ver com drogas (que deveriam ser legalizadas, em minha opinião), mas com o direito de manifestação. Ambos estavam num ato realizado na Avenida Paulista quando foram revistados arbitrariamente e presos por associação criminosa, porte de explosivos, desacato. O secretário de segurança do estado diz que eles são líderes dos Black Blocs (que sequer têm líderes) em uma clara referência de que são os bodes expiatórios para o recrudescimento da ação policial após o ato do dia 19, organizado pelo MPL, em que houve depredações. Várias testemunhas, como o Padre Julio Lancellotti, alegam que as provas foram plantadas - também há filmagens que enfocaram a "geral" tomada por Harano e que comprovam isso.

Querem dar até oito anos de prisão a Fabio simplesmente porque usou seu direito e resolveu se manifestar, como já fez várias vezes e como acredita que pessoas não egoístas devem fazer. Querem botar Rafael no pau de arara público para mostrar o que acontece com quem vai às ruas, defendendo o interesse de muitos.

Por tudo isso, acredito que, se Lennon estivesse vivo, ele seria contra prisões arbitrárias com penas esdrúxulas de pessoas que apenas respiraram ar se manifestando e estão sujeitas a serem bodes expiatórios nacionais. Ele cantaria: "Libertem Fabio! Libertem Rafael!"

terça-feira, 24 de junho de 2014

Transcrição de um sonho

Certa vez li um livro do Kafka chamado "Sonhos". Nada mais é do que uma coletânea de sonhos que o autor transcrevia logo ao acordar, em diversos períodos da vida. Há uma frase dele próprio na contracapa do livro: "escrever uma autobiografia me daria grande prazer, pois seria tão fácil quanto anotar sonhos".

Os sonhos embaralham as nossas percepções do real e nos colocam em um filme abstrato em que nos é dado o papel principal. Eles brincam com sentimentos tão profundos de formas tão simbólicas que, às vezes, podem ser, na hora em que são escritos, a "literatura das nossas vidas". E o mais fantástico disso é que sequer lembramos desse "acordar pra dentro" por mais de algumas poucas horas.

Dia desses encontrei um sonho que anotei em julho de 2012. Aí vai:

"Foi um sonho e ao mesmo tempo um pesadelo. Estranho não seria um bom adjetivo para classificá-lo, já que um sonho “normal” é que está fora dos padrões do que é normal na vida. Estávamos eu e minha companheira andando na rua, à noite, junto com um amigo. Foi então que encontramos outro amigo em comum e os cumprimentos normais se sucederam. Mas a “pilhéria" (brincadeira que parece uma briga) entre os dois amigos em comum confundiu as demais pessoas que passavam pela ruela, que pensavam se tratar realmente de uma briga. Na verdade, foi o pretexto que esperavam.

Tiros para o alto. Num piscar de olhos (ou num passe de mágica, se preferir), estávamos numa balada (boate, danceteria, etc.), mas todos eram reféns do grupo que iria se apresentar. O tempo todo apontavam armas para nós, humilhando-nos. Estávamos sempre no chão, com as mãos na cabeça, mas era como se deslizássemos pelo solo para que mais de uma pessoa tivesse a possibilidade de nos ameaçar.

Num corredor, uma mulher muito bonita estava sentada. Umas sandálias femininas desamarradas estavam no chão, mas não era possível saber de quem eram. Ela me pediu a bolsa de minha amiga (que sei lá como também estava lá) e eu dei. Ela retirou os cartões bancários e perguntou onde estavam os meus. Fiz o movimento de tirá-los da carteira, mas amassei o que uso mais para inutilizá-lo e dei os dois que tinha para a mulher. Ela, obviamente, percebeu e, num gesto de desprezo, devolveu-me ambos.

Na próxima cena, é como se eu tivesse dormido por um tempo. Ao acordar (ainda dentro do sonho), os músicos guardavam os instrumentos e eu comecei a conversar com eles, que retribuíam, mas com chacotas. Perguntei de onde eles eram. Um disse que era são-paulino. Eu falei que era palmeirense, então outro me mandou tomar no cu e todos riram, inclusive eu. Repeti a pergunta e me disseram que eram do Pari. Me despedi cordialmente, eles novamente retribuíram, mas com ironia.

Na saída, dei de cara com uma festa de rua, em que algumas amigas estavam na barraca frontal. Não sei o que estava à venda, mas quando fui cumprimentar uma delas, derrubei um copo d’água no fogão, apagando o fogo. Em seguida, saudei duas amigas da minha mãe e a minha tia, que estava fumando um cigarro de palha ou de maconha e bebendo. Apesar de radicalmente contra entorpecentes e álcool, minha tia não fez menção nenhuma de esconder de mim o cigarro ou a bebida. Aos trancos e barrancos e com a demora para reacender o fogo, ela foi entrando na barraca e dizendo algo como “eu vou arrumar essa porra”.

Foi então que acordei. No entanto, antes dessa passagem, que foi a mais marcante e que me fez despertar de mau humor, houve outra parte, não menos melancólica. Eu estava na casa da minha avó paterna e eu procurava por desenhos, se não me engano, para pintá-los. Encontrei alguns. O primeiro era muito simples e tinha alguns rabiscos, com a face de três pessoas (eu, minha vó e meu pai). O segundo enfocava a mesa da cozinha, com uma galinha ao centro. Era um desenho mais elaborado. O terceiro era um muito bonito, com a figura de uma galinha iluminada pela luz de uma vela. Os traços do sombreado eram nítidos, mas se confundiam com as penas e davam um efeito espetacular".

quarta-feira, 18 de junho de 2014

Redes sociais, fragmentos e contrapontos


Um vez, faz um tempinho, eu escrevi sobre o Twitter, dizendo que ele é um reflexo de nosso tempo: uma ferramenta ágil e superficial - mas que, claro, possui pontos positivos. Tenho muitos amigos que usam e dizem que serve como um grande selecionador de artigos e notícias. E mesmo se não servisse para nada de "útil", todo mundo tem o direito de gastar seu tempo livre como bem quiser.

Mas e a grande rede social hegemônica que desbancou a soberania então inquestionável do Orkut no Brasil? O Facebook, se você for para para pensar, não é muito diferente disso. Tem uma linha do tempo com milhares de postagens de centenas de pessoas diferentes - e poucas delas, imagino eu, passam de 140 caracteres. Quando ultrapassam esse número, é bem provável que o alcance diminua. Há muitas fotos (a rede está cada vez mais dando prioridade às imagens), links (esses sim com artigos e matérias que podem ser mais desenvolvidos) e um espaço também crescente para vídeos. Resumindo, é um emaranhado de fragmentos de onde é possível pinçar coisas legais depois de gastar bastante tempo girando a rodinha do mouse.

E excluindo o fator essencial do Facebook  (o seu aspecto de rede), é possível traçar uma analogia dessa ferramenta com uma mais informativa e que está rareando: o jornal impresso. Ele tem como premissa básica "botar ordem" no caos do mundo e, para isso, fala um pouquinho sobre cada coisa. Esse pouquinho era bem maior até a década de 60, aqui no Brasil. O leitor se deparava com imensos blocos de texto logo nas capas e as matérias tinham tons opinativos mais fortes. O padrão do jornalismo estadunidense "objetivo" e "imparcial" do pós-guerra (com muitas aspas porque não existe objetividade e imparcialidade no jornalismo) passou a imperar a partir de então e as portas foram se abrindo cada vez mais para fotos, ilustrações e design em geral. E os textos foram ficando menores.

Fomos seduzidos pelas imagens e pelas lindas curvas do design. Por quê? Porque elas são informativas também e já nos dão boa ou má impressão de algum conteúdo mesmo que não tenha havido contato nenhum com ele. Elas são como um cartão de visitas sobre o que será discutido. Às vezes precisamos fingir que a diagramação não está tão ruim e ter força de vontade para ler um texto de alguém que você sabe que tem bom conteúdo, mas que subvaloriza a informação "imagética".

Por que o cérebro do ocidental (será que é só do ocidental?) funciona assim? Acho que tem a ver com a vida na sociedade moderna, com a correria das grandes cidades, com a falta de incentivo à reflexão de uma sociedade cujo objetivo principal de quem tá lá no alto é só reproduzir o que já existe e embolsar mais lucro, mas também penso que se a sociedade fosse diferente e mais reflexiva, com maior participação de todos sobre as decisões fundamentais, certamente haveria discussão e muito estudo sobre o poder das imagens e do design. Não dá para fazer a oposição simples conteúdo (profundo) x forma (superficial), já que há complementariedade na relação e existem formas profundas e conteúdos superficiais.

E se o grande problema das redes sociais é a captura de informações pessoais e a falta de privacidade, por outro lado, elas possibilitam, a partir do domínio de algumas técnicas, criar contrapontos de debate e de concepções da realidade que não estão no mainstream, vide a organização dos protestos brasileiros de junho de 2013, canais de música independente e até políticos, como o do humorista carioca Rafucko.

Pois bem, por tudo isso e porque tô tentando levar meu blog mais a sério, lanço hoje a página do Mercy Zidane no Facebook. Lá, vou tentar contribuir pra esse contraponto com as caraminholas que penso por aqui e também com outros conteúdos de blogs amigos que eu ache legal .Copio o Chespirito em sua primeira postagem no Twitter (ele tinha 82 e eu tenho 28): sigam-me os bons!

quinta-feira, 12 de junho de 2014

Não me chame pro churrasco

Se você, caro leitor, for "futucar" no histórico deste blog, vai perceber que o primeiro post, escrito por J. Silva, foi elaborado após a final da Copa do Mundo de 2006, no mês de julho. O nome deste blog provavelmente seria outro se Zidane não acertasse a épica e suicida cabeçada em Materazzi, mas dificilmente deixaria de expressar alguma pitada de futebol.

Oito anos depois, o blog, com seus poucos altos e muitos baixos, sobreviveu e minha paixão pelo futebol (comprove com este texto aqui) e pelo torneio que reúne os melhores jogadores do planeta não mudou, mas impossível passar por cima de tudo o que aconteceu em terras tupiniquins desde que o país foi eleito como sede e simplesmente vibrar despreocupadamente com drible de Neymar ou com um gol de Fred.

Como bem disse o jornalista Juca Kfouri no último Roda Viva, a Copa foi pensada como a coroação de um país que estava "em desenvolvimento" vertiginoso, que tirava pobres da miséria (dizendo que colocava na classe média mesmo que tivessem renda mensal de R$ 300), que possuía uma das economias mais fortes do mundo (e um dos maiores índices de desigualdade social), que aparecia na capa da The Economist como o país que decolava, etc. Seria a cereja do bolo da conciliação de classes do governo Lula - enriquecendo empreiteiras e pedindo a aprovação para os gringos ao tentar mostrar que capitalismo brasileiro funciona a ponto de sediar um megaevento internacional sem problemas.

Em 1958, o técnico da seleção na Copa, Vicente Feola, disse que Garrincha entraria jogando na partida contra a URSS e deu diversas orientações ao rapaz. Depois de ouvir tudo, o jogador perguntou: Mas você combinou isso com os russos? Foi o que faltou aos governos Lula e Dilma: eles combinaram com a FIFA, com as empreiteiras, com grandes empresas, com a imprensa, mas esqueceram de avisar pro sistema que ele não poderia expressar suas contradições. Veio a crise de 2008 (cujos impactos são sentidos até hoje) e com ela uma mudança qualitativa na conjuntura internacional - hoje em dia, é comum ver pessoas nas ruas protestando em diversos países a ponto de governos caírem. No Brasil, existe um número crescente de greves há anos (2012 bateu um recorde de 16 anos e 2013 e 2014 devem seguir nessa linha) e o aumento das passagens explodiu a insatisfação de quem viu um país desigual esquecer de suas prioridades para gastar com estádios-elefantes-brancos (o Brasil fez questão de eleger 12 sedes, sendo que só oito seriam necessárias), dar dinheiro pra uma das instituições mais corruptas do mundo, enquanto mais de 150 mil pessoas foram desalojadas de suas casas e a "nova classe média" - que na verdade é constituída por trabalhadores precarizados -, apesar de ter grana para comprar celular, não tem educação, saúde ou moradia de qualidade.

A "Copa das Covas", que bateu o recorde de gastos e de operários mortos em obras de estádios (9), pelo menos num primeiro momento, não empolga como de costume o torcedor brasileiro. Apenas ontem comecei a sentir o "clima de Copa", com muita gente de verde e amarelo e bandeiras do Brasil colocadas nos carros, coisa que, nos mundiais passados, começava com semanas ou meses de antecedência. Há poucas ruas pintadas e a decoração costuma se dar em lojas - é inegável que há no ar uma sensação de que está estranho torcer depois de tudo o que aconteceu. Até quem não liga para tudo isso e está animadíssimo com o torneio precisa contrapor o bordão dos protestos e afirmar que "vai ter Copa sim".

E se Dilma sambou tanto para tentar encontrar e colocar em sua propaganda os legados do torneio, eu acho simples apontar qual foi o único importante: os trabalhadores e jovens terem voltado a acreditar nas próprias forças. Junho de 2013 mudou o país com milhões nas ruas exigindo demandas de esquerda e conquistando a vitória parcial da manutenção das tarifas. E se em 2014, até agora, os protestos não foram massivos como os do ano passado, uma diferença qualitativa ocorre, pois os trabalhadores estão participando ativamente com suas greves que tentam passar por cima de sindicatos burocratizados (como aconteceu com os garis do Rio de Janeiro e rodoviários de Porto Alegre e São Paulo) e lutar por melhorias para toda a população, vide a greve dos metroviários de São Paulo.

E, como disse meu camarada Thiago, ao final dessa histórica greve dos metroviários: se ganhamos, mostramos que temos força (como aconteceu em 2013) e se perdemos, mostramos que, quando levantamos a cabeça, pelo menos dá jogo.

Por tudo isso, peço que não me chame pro churrasco. Não digo que não vou assistir a um ou outro jogo pela televisão, mas certamente a prioridade nesta Copa é engrossar o coro dos insatisfeitos nas ruas.