Decepção

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2008

Decepção

Eu tenho um tio militante do PT há muitos anos, vice-diretor de uma escola da rede pública de ensino. Ele sempre foi a referência de uma cara de esquerda para mim quando eu era criança. Apesar de não termos muito contato, gosto dele. Identifico-me com seu jeito meio quietão.

No último final de semana eu o encontrei num almoço em comemoração ao casamento da filha dele, minha prima.


Ele perguntou que área que eu pretendia seguir no jornalismo. Respondi que gosto da parte de
cidadania, social. Aí ele começou a falar coisas que eu nunca imaginei que ele capaz. Desqualificou pessoas de periferia, dizendo que agora o que impera é a "cultura da bandidagem" e que "break é dança de troglodita".

Por coincidência, eu fiz um trabalho sobre break ano passado e entrevistei, junto com o Bulhões, alguns caras que se ocupavam da dança e, segundo eles, deixaram de fazer coisas como roubar, usar drogas devido à tal ocupação.


Quando ele falou "cultura da bandidagem", referiu-se ao povo que se sente mais protegido pelo traficante do que pelo policial. Eu disse:
"Pode não estar certo, mas o que eles podem fazer se o policial atira primeiro e pergunta depois; e o traficante realmente dá mais segurança?". Resposta de meu tio: "Eles têm que arrumar outro jeito".

O pior não foi nem ele ter dito essas coisas, foi o modo como ele disse. Essas palavras, esse discurso parece que saiu das páginas da Veja, muito direitoso, muito tucano, como ele mesmo diria antigamente. De tão revoltado, comentei o assunto com minha mãe. Resposta:
"Ah, filho, um dia você vai pensar como ele" - novamente, o agouro maldito.

Bom, se um dia eu pensar que break é dança de troglodita
ou que os próprios desfavorecidos têm que achar um jeito de se virar, por favor, alguém me dê um tiro.
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Metalinguagem-enquete: PT ainda é esquerda para você?