Em 2014, o disco Loki, de Arnaldo Baptista, fez 40 anos.
Esse é um dos meus álbuns favoritos e, como não fiz menção a ele durante o ano passado (apesar de já ter falado aqui sobre o filme homônimo que conta a história de vida de Arnaldo), resolvi abrir o ano mercyzidânico com essa singela homenagem, em que interpreto, por meio de uma tirinha, um pedaço da letra de "Será que eu vou virar bolor?" - clique na imagem para ver em alta resolução.
Pra quem não conhece, vale muito a pena ouvir o disco completo, um dos mais viscerais e sinceros da história da música brasileira.
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quarta-feira, 7 de janeiro de 2015
quarta-feira, 31 de dezembro de 2014
A última conversa
Com tanto tempo juntos, já havíamos conversado sobre assuntos bem variados - de arte a revolução; de compras no mercado a video games; de sexo a séries de televisão.
Mas eles iam rareando. Tornavam-se cada vez menos confluentes e mais conflitivos, apesar do carinho e do companheirismo sempre presentes.
Numa dessas conversas (ocorrida na época dos diálogos mais intensos e simbióticos), cujo tema era a infância, falávamos sobre o dia das crianças, o Natal, os aniversários e de como era prazeroso ganhar um brinquedo muito desejado. Sorrimos, citamos brincadeiras favoritas de nossas épocas e então ela perguntou:
"Sabe quando você está na transição da infância para a adolescência e tenta brincar com o seu brinquedo predileto... Só que não consegue mais? Apesar de já ter se divertido tanto com ele e de se esforçar para sentir o mesmo prazer de antes, ele já não tem mais graça, sabe?"
Marcamos a conversa que, sentíamos, seria a última. Um leve pânico percorreu minha espinha quando ela girou a maçaneta para entrar em casa. Sentamos no sofá.
-Acho que eu não quero mais continuar.
-Que bom que você teve coragem de dizer isso.
Doeu. Choramos, nos abraçamos e foi difícil conseguir dormir. Mas depois de desenvolvermos uma relação tão sincera e de construirmos partes importantes de nossas vidas juntos, não podíamos fingir que nada havia de errado. Não seria justo deixar o carinho impor, só por já conhecermos as regras, a brincadeira que já não dá mais prazer.
Mas eles iam rareando. Tornavam-se cada vez menos confluentes e mais conflitivos, apesar do carinho e do companheirismo sempre presentes.
Numa dessas conversas (ocorrida na época dos diálogos mais intensos e simbióticos), cujo tema era a infância, falávamos sobre o dia das crianças, o Natal, os aniversários e de como era prazeroso ganhar um brinquedo muito desejado. Sorrimos, citamos brincadeiras favoritas de nossas épocas e então ela perguntou:
"Sabe quando você está na transição da infância para a adolescência e tenta brincar com o seu brinquedo predileto... Só que não consegue mais? Apesar de já ter se divertido tanto com ele e de se esforçar para sentir o mesmo prazer de antes, ele já não tem mais graça, sabe?"
Marcamos a conversa que, sentíamos, seria a última. Um leve pânico percorreu minha espinha quando ela girou a maçaneta para entrar em casa. Sentamos no sofá.
-Acho que eu não quero mais continuar.
-Que bom que você teve coragem de dizer isso.
Doeu. Choramos, nos abraçamos e foi difícil conseguir dormir. Mas depois de desenvolvermos uma relação tão sincera e de construirmos partes importantes de nossas vidas juntos, não podíamos fingir que nada havia de errado. Não seria justo deixar o carinho impor, só por já conhecermos as regras, a brincadeira que já não dá mais prazer.
segunda-feira, 29 de dezembro de 2014
Dona Lourdes e o samba de breque
Aos 90 anos, a professora aposentada Maria de Lourdes Pinheiro da Silva (que é minha avó materna) cultiva o hábito de cantarolar músicas de sua infância, as únicas que ainda tem na ponta da língua.
Eu já tinha visto suas performances por várias vezes e, neste Natal, pensei que não poderia deixar passar a oportunidade de gravar alguma delas.
Pois bem, mesmo sem tripé, com iluminação ruim e usando a captação de áudio da própria câmera, editei um videozinho que, se peca em alguns quesitos técnicos, não deixa de mostrar a essência da coisa: a alegria de se fazer algo que dá prazer.
Minha avó resume a ideia com uma frase simples: "Canto porque gosto de cantar". Veja:
Eu já tinha visto suas performances por várias vezes e, neste Natal, pensei que não poderia deixar passar a oportunidade de gravar alguma delas.
Pois bem, mesmo sem tripé, com iluminação ruim e usando a captação de áudio da própria câmera, editei um videozinho que, se peca em alguns quesitos técnicos, não deixa de mostrar a essência da coisa: a alegria de se fazer algo que dá prazer.
Minha avó resume a ideia com uma frase simples: "Canto porque gosto de cantar". Veja:
quinta-feira, 11 de dezembro de 2014
Don't be sad

Agora que eu tenho um cajón, eu precisava de uma desculpa para testar o som dele em gravações. Então parei e pensei que eu nunca postei qualquer música minha aqui no blog. Tomei coragem e gravei uma canção que compus ao longo do ano.
Ela fala sobre duas pessoas - a primeira tenta, de um modo sincero (mas com poucos argumentos), alentar a segunda.
Esteticamente, a canção só tem a pretensão de ser simples. A letra é em inglês porque foram as palavras dessa língua que apareceram na cachola quando eu cantarolava. Gravei tudo toscamente na minha casa, mas foi com o coração rs. Chega de papo, aí vai:
Metalinguagem: o desenho que fiz para ilustrar a música, para os que não perceberam, é um cajón rs
sexta-feira, 28 de novembro de 2014
Não podem arrancar esse prazer de nós
Tem uma porção de gente no mundo. E apesar dos milhares de problemas do viver, que fazem os sorrisos rarearem conforme a idade avança, uma parte desse pessoal todo já deve ter se surpreendido com um prazer repentino surgido numa atividade despretensiosa.
Esse aí da foto é meu pai, contemplando uma das últimas músicas tocadas por Paul McCartney, na apresentação do dia 25, em São Paulo. Descobriu o prazer de "coçar a barriga da guitarra", como diria minha avó, por volta dos 14 anos. Montou bandinhas pelo bairro em que nasceu (e onde mora até hoje) e se apresentou em muitos bares "chapados de gente", como ele gosta de dizer, ao longo dos últimos quarenta e poucos anos. As canções dos Beatles, principalmente da fase mais pop da banda, permearam o início de sua adolescência e marcam presença no repertório de seus grupos até hoje - e claro, também nas suas mais doces lembranças.
Se alguém diz que ele está velho para isso, que tinha de se concentrar no trabalho e em pagar as contas e dívidas ou que essa vida traz o cigarro e a bebida (confesso, como um filho mais chato e responsável que o pai, já fiz algumas dessas críticas), ele responde de bate-pronto: "Eu vou morrer tocando"!
Não sei no que meu velho estava pensando quando minha irmã tirou essa foto. Mas ao olhá-lo nessa posição, após ter se emocionado tanto no show, pensei algo como: a vida é tão difícil. Vendem-nos sonhos e, quando acreditamos neles, são arrancados de nós. Muitas vezes, ele está certo... Só com cachaça pra aguentar tanta coisa que a gente não queria. Só que por mais que essa seja a regra na vida, tem certos prazeres que vão morrer com a gente.
Na saída do show, empolgado e aos 62 anos, ele me perguntou: "Filhão, vamos montar uma banda"?
Esse aí da foto é meu pai, contemplando uma das últimas músicas tocadas por Paul McCartney, na apresentação do dia 25, em São Paulo. Descobriu o prazer de "coçar a barriga da guitarra", como diria minha avó, por volta dos 14 anos. Montou bandinhas pelo bairro em que nasceu (e onde mora até hoje) e se apresentou em muitos bares "chapados de gente", como ele gosta de dizer, ao longo dos últimos quarenta e poucos anos. As canções dos Beatles, principalmente da fase mais pop da banda, permearam o início de sua adolescência e marcam presença no repertório de seus grupos até hoje - e claro, também nas suas mais doces lembranças.
Se alguém diz que ele está velho para isso, que tinha de se concentrar no trabalho e em pagar as contas e dívidas ou que essa vida traz o cigarro e a bebida (confesso, como um filho mais chato e responsável que o pai, já fiz algumas dessas críticas), ele responde de bate-pronto: "Eu vou morrer tocando"!
Não sei no que meu velho estava pensando quando minha irmã tirou essa foto. Mas ao olhá-lo nessa posição, após ter se emocionado tanto no show, pensei algo como: a vida é tão difícil. Vendem-nos sonhos e, quando acreditamos neles, são arrancados de nós. Muitas vezes, ele está certo... Só com cachaça pra aguentar tanta coisa que a gente não queria. Só que por mais que essa seja a regra na vida, tem certos prazeres que vão morrer com a gente.
Na saída do show, empolgado e aos 62 anos, ele me perguntou: "Filhão, vamos montar uma banda"?


