Mercy Zidane: cinema
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quarta-feira, 19 de abril de 2017

3%, a questão estética e as temáticas sul-americanas


 Produzida pela Boutique Filmes, criada por Pedro Aguilera e lançada em novembro de 2016, a série "3%" ficou famosa por ser a primeira trama brasileira original financiada pelo serviço de streaming dos EUA Netflix. Tendo João Miguel e Bianca Comparato como atores mais experientes em meio a novatos de talento, a produção, dirigida por César Charlone, começou na internet (onde teve episódios-piloto lançados em 2011, financiados pelo FICTV/Mais Cultura) e conseguiu se credenciar, com "marketing de guerrilha", a ser filmada com recursos da multinacional de entretenimento. E por mais que os oito episódios da série pós-apocalíptica voltada para adolescentes abordem temas que têm muito a ver com a realidade do Brasil e do mundo atuais (falaremos disso já já), o que talvez mais tenha chamado atenção da mídia brasileira foi...

A questão estética


Um programa de tevê, um filme, uma série... Todos os produtos audiovisuais (e que têm mais foco no visual do que no sentido da audição) têm uma concepção estética. Cenário, produção, fotografia, posicionamento de câmera, estilo da edição. Não é possível dizer que isso não importa ou que é menor, pois é pelas formas, cores e sons que nossos olhos e ouvidos percebem os estímulos para nos entregarem o sentido da trama, que pode gerar entretenimento, reflexão e debate. A forma é importante; sem ela, não há conteúdo, e é possível elaborá-la de maneira coerente com poucos recursos.

Com um orçamento de R$ 10 milhões (muito pouco perto de sucessos da casa, como Narcos ou House of Cards), "3%" conseguiu desenvolver uma estética coesa. Foi elaborado um ambiente futurista e, sabendo que não poderia gastar muito em efeitos especiais, a série não abusou deles - há poucas cenas abertas e com muita computação gráfica -, nas demais, existem pequenas inserções sonoras e visuais que se encaixam na estética da proposta (portas e vidros se transformam em equipamentos "smart" com curtos sons e efeitos visuais). O fato de a série tratar principalmente de um processo seletivo que ocorre em um local específico também ajudou... Assim como os planos mais fechados e a fotografia que valorizou tons mais escuros, apesar de coloridos.

Parece filme B, disse a crítica de um grande jornal do país, que comparou a produção brasileira a tramas estrangeiras que tiveram maior orçamento. Quem se baseou nessa opinião e decidiu não assistir 3% deixou de acompanhar uma série que lida com temas fortes o tempo todo, apesar de haver alguns problemas compreensíveis para uma estreia, como admitiu Bianca Comparato. Também houve, na crítica, quem enxergou os pontos positivos na série, que já teve a segunda temporada confirmada. Mas vamos ao que interessa (e sem spoilers):

Temáticas


Numa região que parece um país sul-americano (ou seria uma fusão de países?) totalmente miserável chamada de Amazônia Subequatorial, indivíduos que chegam aos 20 anos têm a oportunidade de participarem de um processo seletivo ultracompetitivo - apenas 3% dos concorrentes são aprovados. Quem passa vive em um lugar isolado, rico e próspero, com medicina e tecnologia avançadas: o Maralto, chamado também de "lado de lá".

Com essa breve sinopse já dá para supor que o autor se inspirou no vestibular... E quem dá uma olhada só no piloto da série no YouYube tem a mesma percepção (o comentário em destaque na plataforma é "Esse processo de seleção, no mundo real a gente chama de Enem mesmo"). Na série, quem não é aprovado, tem expectativas de uma vida melhor diminuídas drasticamente.

Fazer a associação com condomínios fechados, em que ricos formam ilhas de segurança, com altos muros e cercas elétricas em meio a bolsões de miséria, comuns no Brasil, também não é difícil. Só que a metáfora "ilha" é levada ao pé da letra na série, pois Maralto, ao que tudo indica, é uma ilha, enquanto o restante da Amazônia Subequatorial se parece com regiões centrais degradadas de grandes cidades, misturadas a favelas.

O candidato ao processo filho de família abastada tem a regalia da empregada doméstica, mesmo sendo obrigado a morar junto do povo até completar seus 20 anos. Os demais convivem com operações policiais arbitrárias monitoradas pelo pessoal do Maralto - dentre esses, alguns precisam falsificar identidades para entrarem no processo, de modo que possam tentar a sorte pela segunda vez ou darem um jeito de sumirem devido a um crime cometido.

Quando o processo se inicia, os jovens são saudados por Ezequiel (João Miguel), o comandante do certame, que faz todos agradecerem a oportunidade de participação. Isso lembra as humilhantes provas de programas de TV em que um desempregado precisa fazer miquices em público para ganhar alguns milhares de reais, de modo que o apresentador, que é um agente dessa exploração, pareça um benfeitor.

Individualismo, meritocracia, escolha de inimigos e os personagens humanos


O processo iguala diferenças e transforma direitos fundamentais em privilégios quase impossíveis de serem conquistados (outra semelhança com o mundo com economia em recessão e cortes). Tendo como perspectiva a vida no Maralto, o individualismo é incentivado e vale tudo para seguir adiante na disputa, mesmo que isso inclua mentir, intimidar e roubar. Questiona-se também a meritocracia.

Mas há o contraponto: a Causa, uma seita que tem o objetivo de unir revoltados com o processo e mostrar, apesar das campanhas oficiais (corroboradas pela igreja), o quão injusta a seleção é. O inimigo não seria, portanto, o concorrente à vaga, mas o sistema que os força a competir.

Em meio a tudo isso, há personagens humanos, que vão sabendo jogar no “reality show” da seleção e que acabam revelando certos segredos e muitas contradições ao longo da trama.

Séries precisam de iscas para os finais de episódios e isso não falta a 3%. Se não é totalmente viciante e com mil acontecimentos de velocidade estonteante, é intrigante. Há forçação de barra em algumas situações (uma cena de envenenamento, a morte de personagem depressiva em um local de recuperação, entre outras). Mas, em geral, a trama conseguiu formar um núcleo de personagens interessantes. Não foi monótona ou previsível, seguiu uma tendência de desconstruir maniqueísmos e deu ao espectador a sensação de gradual aumento do conhecimento sobre a formação dos personagens.

Temas não são aprofundados, mas são reconhecidos e expõem críticas


Todos esses temas listados acima não são abordados profundamente. Não é a proposta da série e provável que o próprio formato não permitisse, mas é muito legal tê-los em uma produção nacional vista em todo o mundo (isso que outros, como estresse psicológico, relação com deficientes físicos, cena de tortura análoga à praticada na ditadura brasileira - também estão na trama -, não foram citados).

Num país com novelas que giram em torno de romances vazios (com exceções) e fogem de temas-tabu, 3% cumpriu com êxito o desafio de fazer ficção científica com baixo orçamento e, mesmo com alguns erros, colocou um ponto de vista sul-americano (e não o já manjado drama do branco estadunidense) no mundo, puxou para o debate temas relacionados com a desigualdade e a crise econômica - dando destaque a atores negros e mulheres. Não é um pastiche de Jogos Vorazes ou de Divergente, pois tem na essência elementos que brasileiros e latinos reconhecem no dia a dia.
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Metalinguagem: agradeço à minha amiga Carol Almeida, que me emprestou seu conhecimento sobre séries do tipo, debateu 3% comigo, ajudou a revisar e a construir este texto.

segunda-feira, 29 de dezembro de 2014

Dona Lourdes e o samba de breque

Aos 90 anos, a professora aposentada Maria de Lourdes Pinheiro da Silva (que é minha avó materna) cultiva o hábito de cantarolar músicas de sua infância, as únicas que ainda tem na ponta da língua.

Eu já tinha visto suas performances por várias vezes e, neste Natal, pensei que não poderia deixar passar a oportunidade de gravar alguma delas.

Pois bem, mesmo sem tripé, com iluminação ruim e usando a captação de áudio da própria câmera, editei um videozinho que, se peca em alguns quesitos técnicos, não deixa de mostrar a essência da coisa: a alegria de se fazer algo que dá prazer.

Minha avó resume a ideia com uma frase simples: "Canto porque gosto de cantar". Veja:


quarta-feira, 17 de setembro de 2014

O parente do Rossi


O post que você começa a ler agora está sem ilustração desenhada porque ele tem muito a ver com a foto acima. O cara do lado direito, com toda sua formosura, sou eu. O outro é o Ubirajara, conhecido como Bira. Ele trabalha no Museu de Arqueologia Industrial e Tecnologia (Maitec), que visitei um tempinho atrás e do qual falei nesta postagem aqui.

Ele é responsável pela parte audiovisual do museu. Sua função é explicar aos visitantes como funcionavam os televisores, projetores cinematográficos, rádios e outros objetos expostos numa sala específica sobre o tema.

Chama atenção do visitante a paixão com que Bira fala sobre o funcionamento da projeção antiga, ponderando os avanços técnicos, questionando se o aumento da qualidade seria tão significativo assim e se entristecendo com a extinção de projetores antigos no Brasil (que, se bem me lembro, viria por lei - o que poderia significar o fechamento de muitos cinemas, principalmente no interior). Por fim, ele executou uma rápida projeção numa máquina bem velha, movida a diesel, antes de dar cópias dos negativos para os observadores. "Guardem porque não não vai durar muito".

Como durante a exposição Bira comentou sobre filmes antigos, ao final, me aproximei e falei para ele que eu tinha um tio avô que foi um tanto importante para o estabelecimento do cinema nacional: Gilberto Rossi (que meu pai e minha vó chamam de "Nonno").

-Você é parente do Rossi?!?!

Bira deu um pulo pra trás. Fiquei até meio sem graça com a euforia dele. Começou a me falar sobre como o Rossi foi importante. "Era um visionário!", disse, depois de explicar que meu tio avô fez livros destinados a profissionais e amadores que ensinavam a filmar em diversas situações, sem contar a qualidade das produções de que fez parte, como diretor e diretor de fotografia.

Falei da V Jornada de Cinema Silencioso, de 2011, a primeira e única vez em que vi filmes de Rossi. Se não me engano, foram três. Outra descendente do "Nonno", Claudia Agazzi, executou a trilha sonora ao vivo, tocando piano. Bira não apenas estava presente, como foi a primeira vez que projetou em uma máquina bem antiga para um público grande. 

Ficamos conversando por vários minutos, curtindo essa empatia inusitada que meu tio avô (que sequer conheci) proporcionou. Quando eu estava indo embora, ele me impediu e disse pra sua colega: "Tira uma foto minha com o parente do Rossi". Meio sem jeito eu aceitei e pedi para a moça fazer a gentileza de registrar o momento também com a minha câmera.

sexta-feira, 30 de maio de 2014

Precisamos de um cinema panfletário


Numa das aulas do curso de Ciências Sociais que faço, certa vez, um professor proferiu o seguinte comentário quando falava sobre uma das mais famosas obras de Marx e Engels, o Manifesto Comunista:

-É um panfletão!

O contexto da afirmação, se não me engano, tinha a ver com as diferentes fases das elaborações de Marx. O tom pejorativo do comentário quis inferiorizar a atuação militante e valorizar as teorizações mais "acadêmicas" (se é que podemos chamar com esse nome) do barbudo comunista. Fiz a ressalva entre parênteses porque Marx nunca quis ganhar uma cadeira em universidade para estabelecer sua teoria. Ele queria entender e mudar o mundo, e enxergava a relação fundamental entre teoria e prática, pois propôs uma filosofia que partisse da "terra", fosse ao "céu" e retornasse ao campo material para ser provada na realidade, em suas Teses sobre Feuerbach da Ideologia Alemã. Em O Capital, não esmiuçou à toa os mecanismos mais invisíveis da reprodução da mercadora e da criação do lucro dos patrões. E, no próprio Manifesto, resume conteúdos de significados políticos imensos dirigindo-se a trabalhadores para chamá-los a se unirem contra o estado de coisas que se desenvolvia, pois só eles poderiam alterar as estruturas. Ou seja, não faz sentido separar o que, para o barbudão, era indivisível.

Mas vamos nos ater um pouco ao xingamento do professor de sociologia. Um "panfletário" não é simplesmente uma pessoa que distribui panfletos. Literalmente é, mas  acabou se tornando sinônimo de alguém que não apenas dá acesso a uma informação redigida por uma pessoa ou grupo num pedacinho de papel, mas que tenta convencer outro politicamente de uma ideologia. Como os políticos da ordem e os ricos em geral convencem seus pares com muitas maletas de dinheiro em reuniões em hotéis luxuosos e só sabem o que é panfleto em época de eleição, o termo acabou sendo associado mais aos esquerdistas, imagino eu, pelo fato de ser esse grupo de pessoas que tenta convencer os trabalhadores do próprio poder que têm nas mãos a partir do chamado "trabalho de base" - que consiste não apenas em panfletar para trabalhadores de diversas categorias profissionais, mas também em atuar em sindicatos e comitês de classe. E, ao contrário do que muitos direitosos dizem, ninguém pode compactuar um conteúdo de um panfleto se ele for empurrado goela abaixo. Para que haja aceitação de uma ideia, é preciso debate e discussão em torno dela.

Se pararmos para pensar, os últimos cerca de 30 anos não foram tão frutíferos para os panfletários esquerdistas (esses que realmente querem mudar o mundo). O ascenso do neoliberalismo, a flexibilização de direitos, a queda da União Soviética (que mesmo burocratizada por uma casta privilegiada ainda era um estado operário), entre outros fatores, fizeram com que surgisse a ideia de "fim da história", por meio de Francis Fukuyama. Nela, acreditava-se que o mundo capitalista estava rumando para o fim de suas contradições e que, aos poucos, tudo iria melhorar para todos. O auge dessas ideias data da década de 90 e o termo país "em desenvolvimento" vem dessa época. É bom lembrar que muitos ex-esquerdistas, apesar de discursarem sobre revolução nos dias de festa, capitularam totalmente à tentativa lentíssima e gradualíssima de melhorar as coisas dentro do sistema.

Finalmente o cinema

E é só agora, depois de cinco parágrafos, que vou meter o cinema na história. Nessa época, os filmes, como era de se esperar, continuaram a ser produzidos (em alguns poucos países) e distribuídos em todo mundo. De maneira bem genérica, é possível dizer que houve uma pressão da realidade para que eles se adequassem a esse tipo de ideologia dominante.

Excluindo as exceções e tentando formar uma panorama bem abrangente, no Brasil, após os filmes muitas vezes mais herméticos, mas cheios de conteúdo político do Cinema Novo dos anos 50 e 60, os 80 viveram de chanchadas e os 90 presenciaram o início do que ficou conhecida como Retomada, em que os filmes nacionais voltaram a ser produzidos para exibição em cinemas, geralmente com algum tipo de auxílio governamental.

Inegável que houve uma leva de filmes que expressou contradições do sistema - desde as diversas películas sobre ditadura a documentários que retratavam a miséria de populações excluídas, passando por produções alternativas que tinham a política mais como pano de fundo. Mas não me recordo de algum filme que tenha em seu escopo a proposição de mudanças de paradigma de organização social. Em outras palavras, todo mundo filmava as contradições, mas ninguém dizia o que fazer para superá-las.

Eis que, não mais que de repente, como é de costume no capitalismo, a sujeira começou a sair por debaixo do tapete no mundo e as tais contradições que, teoricamente, tendiam a decrescer foram aumentando do fim da década de 90 e início dos anos 2000, até que a crise de 2008 explodisse, com a bolha imobiliária.

Primavera Árabe, indignados na Espanha, estudantes chilenos, trabalhadores gregos e a própria luta contra o aumento da passagem no Brasil. Tudo isso aconteceu num intervalo menor que quatro anos e representa a reverberação da insatisfação dos trabalhadores e da população em geral com a falta de capacidade desse sistema desigual de conceder demandas democráticas básicas, como ensino público, transporte para todos, emprego, remuneração digna, moradia.

Revoltas e processos revolucionários já não são mais coisa de maluco e muita gente mundo afora tem percebido que greves e manifestações de rua questionando regimes podem conquistar vitórias (mesmo que parciais). A tendência é de crescimento de protestos.

Certo. Se a conjuntura política está efervescente no mundo todo e no Brasil (como há muito não se via), o que esperar do cinema nacional? Reflexos de tudo isso certamente irão aparecer mesmo na indústria cinematográfica (já há alguns documentários sobre as Jornadas de Junho), mas num momento em que as tecnologias para captação de imagens e de áudio e para edição já estão muito mais acessíveis e os métodos de divulgação de conteúdo são diversos e bem efetivos, eu acho que está na hora de emergir um cinema não apenas que mostre as subjetividades e os dramas pessoais que pululam das contradições do sistema, mas que proponha ideias que possam levar ao questionamento do capitalismo, propagandeando uma sociedade em que todos sejam trabalhadores e tenham as mesmas condições. Ou seja, precisamos de um cinema panfletário! Um cinema que defenda uma ideia e seja ponto de partida para muitos debates acerca de como uma nova sociedade pode ser criada. E se isso é ser panfletário, que tenhamos orgulho em sê-lo.

E o exemplo a ser seguido, em minha modesta opinião, é o da série Marx ha vuelto, produzida pelo Instituto del Pensamiento Socialista Karl Marx (IPS), pela TV do Partido de los Trabajadores Socialistas (TV PTS) e pelo Contraimagem. Ela trata, vejam vocês, justamente do maior panfleto de todos os tempos, do qual falamos no início do texto, e que segue convencendo pessoas a militarem pelo socialismo até hoje: O Manifesto Comunista.

Os capítulos da produção ficcional têm pouco mais de dez minutos e o intuito é mostrar a atualidade do pensamento de Marx, misturando, de forma bem dinâmica, o dia a dia de um trabalhador gráfico, animações que retratam crises e contradições do sistema, e trechos do Manifesto explicados por um Marx que voltou ao nosso tempo e conversa com demais trabalhadores, de forma informal, num bar, que poderia ser o da esquina da sua casa. E, como no panfleto de Marx, mostra que só os trabalhadores unidos podem superar o capitalismo.

Recomendo fortemente a todos e espero que sirva de inspiração para quem tem uma camerazinha bem marromenos na mão e ideias revolucionárias na cabeça.

Assista abaixo aos quatro episódios com legendas em português:


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Metalinguagem: esse tipo de cinema seria o que eu faria agora se me fosse dada liberdade e possibilidade, mas não significa que eu considere apenas filmes que têm a propaganda socialista como bons - isso seria absurdo - estou elaborando um post a respeito para tentar aprofundar minha concepção. Para saber mais sobre a conjuntura política dos últimos 30 anos, clique aqui.

sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014

Coutinho me fez alugar filmes das prateleiras empoeiradas


Quantos filmes será que já foram feitos na história da humanidade? Quantos foram dublados? Quantas pessoas os assistiram? Quantas películas (em média) uma pessoa assiste ao longo de sua vida? Infelizmente, essa estatísticas dificilmente se tornarão disponíveis um dia (sobre o tema, leia mais neste acurado artigo científico), mas, com a televisão tão presente em nossas vidas e a ida ao cinema (independentemente do filme) sendo um lazer razoavelmente difundido em muitos países do ocidente, temos acesso a produções cinematográficas desde muito jovens. Conhecemos os gêneros, os principais atores, diretores, lançamentos, clássicos (geralmente internacionais, já que os filmes brasileiros são difundidos em pequenos nichos), etc. - tudo isso, em geral, levando em conta o cinema comercial.

Só que um desses gêneros é maldito. Tanto que muitos nem o consideram como parte da sétima arte. Quem nunca ouviu a pergunta "é filme ou documentário"? É um documentário, mas não deixa de ser um filme por isso.

Eu pensava como todos os que associam documentário a uma terrível voz em off (também conhecida como "voz de Deus", pelo fato de o narrador não aparecer na tela e explicar tudo de modo muito convincente) que cita as características inconfundíveis dos pinguins da Patagônia, de uma forma lenta, enquanto enfoca os animais em sequências intermináveis. Mas, no terceiro ano da faculdade de jornalismo, fui apresentado a alguns filmes de diretores importantes do cinema documentário.

Lembro de ter assistido, durante as primeiras aulas de Jornalismo Televisivo II, a pelo menos três filmes: "O prisioneiro da grade de Ferro", de Paulo Sacramento; um doc sobre um artista hollywoodiano decadente (cujo nome não me recordo agora) e que era montado apenas com fotos; e "Cabra marcado para morrer", para muitos, a obra-prima de Eduardo Coutinho, que enfoca a interrupção de um filme ficcional militante devido ao início da ditadura militar. Depois de gostar muito das três películas, entendi que documentário é muito mais do que o senso comum diz que ele é - assim como um filme de ficção, ele pode ter uma narrativa, uma estética, uma concepção de edição, uma finalização, uma trilha sonora, etc., só que partindo de uma percepção do real. Em outras palavras, é um filme como qualquer outro.

Comecei a correr atrás de outras produções do gênero e fui rapidamente atraído pelos trabalhos mais recentes de Coutinho: "Edifício Master", "Santo Forte", "Peões" e "O fim e o princípio". De maneira geral (ou seja, excluindo as diversas particularidades desses quatro filmes), o que me chamou atenção foi a falta de recursos tão comuns ao cinema convencional. Não há cortes rápidos ou trilha sonora que "prepara o terreno" para a emoção a ser sentida logo em seguida. O diretor e sua equipe não se comportam como uma "mosca" que não quer ser notada pelos espectadores - eles aparecem no filme, mostram que são parte dele, e que, por tabela, o filme é uma construção, e não a realidade, comumente tão associada aos documentários. Os protagonistas são ilustres desconhecidos e a profundidade das entrevistas é imensa, ao ponto de o entrevistado falar e fazer coisas que dificilmente esperaríamos.



Depois, vi outras produções do diretor: "Santa Marta: duas semanas no morro", "Teodorico, imperador do sertão", "Boca de Lixo", "Jogo de Cena" (imagem acima) e "Moscou".

E mesmo podendo dizer que a maior parte dos filmes segue certos padrões (a utilização de uma locação fixa, desconhecidos como protagonistas, trilha sonora tirada apenas do ambiente, conversas longas em que não há uma tese a ser provada ao final do filme -a não ser a de que uma conversa longa de uma pessoa simples pode dizer muito sobre a vida-, a pouca importância dada à precisão ou à imprecisão do que os entrevistados dizem, deixar de lado a voz em off), Coutinho questionou todos eles ao longo de suas produções. Em "O fim e o princípio", ele "correu atrás do filme" sem saber aonde iria parar; usou atrizes famosas em "Jogo de Cena", talvez o filme mais expositivo da ideia que queria passar (a de que o documentário também é um ficção); em "Moscou", não fez perguntas aos atores; em "Cabra Marcado...", tentou reconstruir os fatos com um rigor talvez um pouco maior; usou a voz em off do próprio Teodorico, em "Teodorico, o imperador do sertão".

O nome de Coutinho ficou muito ligado ao tal "cinema de conversa" e à profundidade que ele passava, mas ele fez muito mais que isso. Produziu ficções não documentais no início de carreira, teve experiência militante no CPC da UNE, amadureceu um estilo de produzir cinema (no qual seus filmes mais famosos estão), mas sempre o questionou e fez experiências para superá-lo. E, para mim, tudo isso somado às qualidades que possuía para "conversar" e enxergar o filme nessas e em outras "conversas" fizeram ser um dos grandes do nosso cinema, a partir de uma produção sincera e provocadora. Sincera porque os filmes de Coutinho sempre deixaram claro para o espectador que há um grupo de pessoas produzindo a película, a partir de uma visão deles acerca da realidade (o documentário não é o "real"), além de desdenhar dos "efeitos de sedução" da montagem convencional para fisgar seu público. Não era ali que estava o filme, era no conteúdo. E provocadora mesmo por ousar fazer tudo isso, por apostar na profundidade, no questionamento de paradigmas do cinema convencional, na simplicidade de boas conversas com pessoas humildes e na ficção documental.

Em geral, os críticos o olham como um cineasta do "humano". Sim, Coutinho extraiu emoções de seus entrevistados que poucos diretores conseguem tirar de seu atores em filmes de ficção, mas teve as contradições sociais muito presentes em grande parte da sua produção. Não fez um cinema militante (talvez o primeiro "Cabra marcado..." tivesse sido), não quis convencer ninguém a tomar partido, mas se interessou por mostrar como moradores de favelas, trabalhadores presentes no ascenso do ABC, catadores de lixo e sertanejos entendiam o mundo. Apesar de ter transitado, em alguns filmes, pela camada média decadente, é possível que o gosto pelos pobres anônimos e pela história não oficial seja uma herança dos tempos militantes. Coutinho foi um cineasta do humano, com sensibilidade para os problemas sociais e uma criatividade gigantesca, que permitia a ele reinventar seu cinema muitas vezes.

Era, muito provavelmente, aos 80 anos, um dos diretores mais vivos do cinema brasileiro e mundial.

E depois de pensar nisso tudo devido à trágica morte de Coutinho, no último dia 2, e me questionar se eu deveria escrever a respeito, lembrei-me de um episódio, que já deve ter acontecido com muitos anônimos (que o diretor gostava tanto de retratar). Quando ainda não existiam arquivos em torrent e internet de alta velocidade, o atendente da locadora me perguntou por que eu alugava tantos documentários, desses escondidos nas prateleiras mais empoeiradas. "É para estudo ou trabalho"? Quando eu disse que era porque eu gostava, ele não acreditou. Como poderia alguém gostar de documentários?

Coutinho foi um dos grandes responsáveis.

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

Pelé 70

Pegando a onda do post anterior, reproduzo abaixo o curta-metragem "Uma História de Futebol", em lembrança aos 70 anos de Pelé (o jogador, não o empresário Edson).

Filme tocante para qualquer um que já sonhou em ser jogador de futebol.


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Metalinguagem: a preguiça também contribuiu para essa rápida homenagem ao maior jogador de futebol de todos os tempos.

sábado, 16 de outubro de 2010

Lennon 70

Comecei a escrever este texto no dia 11 de outubro.

Ontem, quando a mídia alardeava os 70 anos que John Lennon faria se estivesse vivo, lembrei-me de ter baixado um documentário recente, chamado "The U.S. vs. John Lennon", de David Leaf e John Scheinfeld II.

Gostei. O Lennon nova-iorquino é mostrado em seu viés mais político devido aos problemas que causou ao governo Nixxon. Basicamente, o ex-beatle se torna um ativista contra a guerra do Vietnã, bancada pelo corrupto presidente. Só que o poder de alcance de John chegou muito mais longe do que se imaginava e do que os governantes toleravam.

Não creio que Lennon fosse revolucionário, mas se deu a liberdade de conhecer novas ideias e figuras.Conversou e foi amigo de líderes da esquerda mais radical que havia nos EUA na época (pelo menos segundo o documentário), lidando, inclusive, com grupos armados, como o Partido dos Panteras Negras.

Tentou inclusive popularizar e acabar com estigmas sobre tais agrupamentos (falando sobre eles nos meios de comunicação).

Havia contradições. John tinha muito dinheiro e levava uma vida de luxo. Apesar dos contatos descritos acima, era pacifista e acreditava que a mudança das ideias era a chave para alterar o mundo (assim como os neo-hegelianos?).

Mesmo tendo discordância com a visão do mais famoso beatle, respeito-o por ter chegado ao ápice do estrelato e não ter ficado satisfeito simplesmente com o mais do mesmo, cantado "love songs", tomado garrafas do mais caro champagne e mantendo praticamente nula sua influência sobre atitudes políticas da juventude.

A infância em um bairro operário, a visão (conjunta com outros integrantes) de que a superficialidade havia tomado conta da carreira dos Beatles e a noção de que a sua figura poderia influenciar os jovens a agir contra a guerra foram fatores que fizerm Lennon usar sua criatividade em canções mais politizadas (Power to the People, Working Classe Hero, I Don't Wanna Be a Soldier Mamma, I Don't Wanna Die, entre outras) e, principalmente, nas genais zombarias aos grandes meios de comunicação (lua de mel na cama, Newtopia, entrevista dentro de uma bolsa, etc.).

Não sei se é porque na minha geração os artistas mais engajados falam de sustentabilidade no ecocapitalista SWU, mas acredito na sinceridade de Lennon. Ele não fazia aquilo para vender mais discos, para ser o artista mais bem pago de sua geração. Ele já tinha alcançado o topo e viu que ele era entediantemente falso e superficial. Mesmo que de forma ingênua e sem sair de seu palácio, Lennon tentou mudar algo. Mas, obviamente, não foi suficiente.

Agora, uma música que não tem relação com o post, mas que é muito bonita e eu nunca tinha reparado:


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Metalinguagem: demorei muito tempo para escrever. Cada hora lembrava de uma coisa.

sábado, 4 de setembro de 2010

Gilberto Rossi, cineasta

Tenho alguns parentes que contam tantas lorotas que eu nem acredito mais no meu sobrenome.

Noutro dia, disseram-me que um tal de Gilberto Rossi, bisavô do meu pai, tinha feito muitos filmes premiados no início do século XX.

Mesmo tendo grande interesse por cinema, não dei bola.

Eis que meu pai recebeu por email e me mostrou uma relação das películas das quais seu bisavô participou.

Fui averiguar e descobri que o tal Gilberto Rossi realmente foi um dos desbravadores do cinema nacional.

Em uma busca medíocre no Google, seu nome aparece ao lado de cineastas de destaque, como Humberto Mauro, diretor de "Ganga Bruta" e "Descobrimento do Brasil".

Nova busca e agora mais informação, disponível online em fragmentos do livro "Enciclopédia do Cinema Brasileiro": Rossi era especializado em fotografia. Sua produtora, a Rossi Filmes, era responsável pelo mais popular cine-jornal dos anos 20, o Rossi Atualidades. Participou de diversos documentários encomendados, chamados de "cavados", muitos deles a mando do governo de Washington Luís.

Em parceria com o diretor José Medina, fez a fotografia de "Exemplo Regenerador" (1919), de "Perversidade" (1920) e, segundo a Wikipedia, da obra prima do cinema mudo brasileiro: "Fragmentos da Vida" (1929).

E daí?

Fiquei pensando no sentido dessa informação.

Pouca coisa muda ao saber que tive um parente que ajudou o cinema nacional a dar os primeiros passos. Vi apenas uma vantagem: recebi um certo estímulo a conhecer mais filmes dos primórdios e do próprio Gilberto. Há um tempo, quando ainda morava em Suzano, comecei a assistir a películas antigas, como "Limite", Mario Peixoto, e o já citado "Descobrimento do Brasil".

Ser parente de Rossi não me deixa com mais ou menos vontade de produzir um documentário independente sobre a linha do trem que corta a região do Alto Tietê (ainda almejo realizá-lo), mesmo porque a cultura cinematográfica não se desenvolveu em minha família. Existem algumas latas de filme e negativos guardados no quartinho da bagunça e só. Sem contar que, como Antônio Abujamra, não acredito em "filhos de", menos ainda em "tataranetos de".

Acho que é apenas um fato curioso, que merece um post.
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Metalinguagem: a partir do intertítulo já é metalinguagem.

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010

O sorriso bobo do Loki (2)

Recentemente, o filme "Loki" (sobre Arnaldo Baptista, foto), de Paulo Henrique Fontenelle, foi disponibilizado para download.

Quando o assisti pela primeira vez, no cinema, emocionei-me ao ver o drama de um artista que conseguiu colocar para fora toda a ânsia por criatividade estética e, posteriormente, transformar a grande tristeza/loucura acumulada que levava consigo em canções extremamente tocantes, sinceras. Não reparei em elementos técnicos do filme.

Após assisti-lo por mais três vezes nos últimos dias (sempre com amigos), tenho certeza de que se trata de um grande filme. Consegui enxergar a linha narrativa um pouco melhor, reparar em alguns recursos de estilo, mas a sensibilidade transborda, e te desconcentra, por mais que olhar já esteja viciado.

Há falhas, como a sobrevalorização do papel político que Os Mutantes teriam na época da ditadura. O pensamento crítico do grupo se baseou quase exclusivamente na estética. Com os grandes ícones da MPB exilados, a banda de rock alternativo estava livre para falar de sexualidade, drogas e fazer inovações estéticas para "meia dúzia" de jovens da classe média. No entanto, o diretor usa relatos que não explicam por que os militares deixavam o grupo "na boa".

Mesmo assim, conduzir o documentário por meio da confecção de um quadro autobiográfico feito pelo próprio Arnaldo foi uma ótima ideia, além de ser mais um entre vários elementos emotivos.

Mais do que nunca, mantenho e defendo o relato que escrevi em julho de 2009 sobre "Loki", o filme.
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Metalinguagem: inicialmente, a ideia era apenas transcrever o post de 2009. Comecei a escrever a introdução, ficou grande, mas e resolvi mantê-la, pois o relato antigo fala exclusivamente da sensibilidade presente na obra.

sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

Sobre os monstros que habitam dentro de nós

Gosto das obras feitas para crianças. Não de todas, é verdade. Aprecio as que não as subestimam.

Sou grande fã de "O Pequeno Príncipe", de Saint-Exupéry, por mais que as misses de todo o mundo o reivindiquem, sem o entenderem. Emocionei-me com "Os Meninos da Rua Paulo", de Férenc Molnar. Recentemente, fiquei viciado nas músicas do grupo "Pequeno Cidadão", com sua psicodelia para crianças.

Mas foi sem pretensões do tipo que entrei na sala de cinema para assistir "Onde Vivem os Monstros", de Spike Jonze (adaptação do livro homônimo, de Maurice Sendak), no último final de semana. Logo percebi que a escolha foi acertada e que o filme não subestimaria crianças. Portanto, não era feito apenas para crianças.

O enredo conta o drama de um menino de seis ou sete anos que tem pouca atenção da mãe e da irmã mais velha.

Não é a falta de amor que o torna solitário, mas as imposições da rotina sobre seus parentes, como a necessidade da mãe de manter o emprego e as atitudes adolescentes de sua irmã.

Convenhamos, mesmo com tais ressalvas, é difícil entender a indiferença, por mais sentido que ela tenha. Sentindo-se só e com ódio (lembremos que tal sentimento está muito próximo do amor), o garoto Max comete atitudes de uma radicalidade emocional pouco comum em crianças. Libera seus monstros, envergonha-se, foge.

A fuga é para dentro de si, onde materializa seus monstros. É como se cada um deles fosse uma pessoa com personalidade distinta, com as quais temos de lidar ao longo da vida. Ao mesmo tempo, os monstros são nossos sentimentos. Calmos, fortes, felizes, loucos, depressivos, sãos.

Os sentimentos gostam do garoto. Ele os domina, mas não sem se ferir e sem machucar os monstros-sentimentos. E as chagas são irreversíveis.

Trata-se de um filme sobretudo humano. Paradoxalmente, ao lidar com monstros e fantasias, mostra um humano verdadeiro. É um embate tão forte do homem com seus sentimentos mais irracionais, que parece não ser humano... mas é exatamente por isso que o é. O garoto e os monstros se descontrolam, ferem, se machucam, esquecem a racionalidade que nos torna "diferentes".

Durante a vida inteira fazemos isso.
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Metalinguagem: fiz este post por ter sentido certa culpa após assistir ao filme. Peço desculpas sinceras aos amigos que já precisaram de mim e eu não os compreendi. Peço desculpas sinceras aos amigos que tentei monopolizar de forma egoísta, sem os compreender.

segunda-feira, 20 de julho de 2009

O sorriso bobo do Loki

Depois de conversar a respeito de bandas dos anos 80 com alguns amigos, resolvi escutar novamente o disco "Dois", da Legião Urbana. Fazia tempo que eu não prestava atenção na história de amor de "Eduardo e Mônica" (um boyzinho e uma garota "alternativa").

A afeição de Mônica pela banda os Mutantes foi um dos atributos que seduziu o rapaz.

(Em 99, quando comecei a ouvir incessantemente as músicas da Legião, eu sequer imaginava quem tinham sido os Mutantes. Porém, em 2008, eu tinha uma banda cover de Mutantes)

Mas por que eu estava falando sobre isso? Ah, sim. Assisti ao filme "Loki", de Paulo Henrique Fontenelle, que retrata a explosiva trajetória do mais brilhante integrante d'os Mutantes: Arnaldo Dias Baptista.

Arnaldo era um menino brincalhão. E com um sorriso meio bobo, divertia-se viajando em seu contrabaixo elétrico. Numa molecagem, misturou rock com samba (ei João!), causando fúria nos conservadores da sala de jantar (ei José!). De bobo, só tinha o sorriso, pois não teve medo de brincar de amor nem de criar o dia 36.

A rotina, uma forte decepção amorosa e o vazio dos prazeres fugazes fizeram o menino perder o sorriso fácil. Estaria ele crescendo e se apegando às coisas materiais? "Loki" (o disco de 74, não o filme) é um retrato formidável da mais pura angústia. Um disco de rock sem guitarra. Possivelmente, a tentativa de demonstrar a falta de sentido em seu mundo.

Na lucidez mais serena de quem já passou três vezes pelo hospício e tinha pavor de morrer trancafiado numa camisa de força, o loki Arnaldo se joga de um prédio e, milagrosamente, volta a ser menino. Torna-se mais amigo das crianças, dos velhos e dos animais. Recupera a ingenuidade dos pequenos, sem esquecer a vivência da "primeira juventude". As sequelas, que deveriam ser um peso, transformam-se em uma ferramenta para descobrir a simplicidade que havia se perdido em sua vida. O sorriso bobo e fácil está de volta aos mutantes lábios.

O filme em si, além de mostrar relatos de uma história fantástica (líder de uma das maiores bandas de rock do mundo se joga de prédio e sobrevive), acerta pela sesibilidade de escolher como fio condutor a manufatura de um quadro produzido pelo próprio Arnaldo. Com uma arte infantil que não se preocupa com o prestígio das técnicas de pintura consagradas, Baptista exprime sua trajetória na tela.

No quadro, estão os Mutantes, o amor por Rita Lee, as drogas, as inovações musicais, os amigos, a loucura, as sequelas. Ao lado da obra está um senhor, um menino sem medo de pular, brincar e gritar:

"Eu não tô nem aí pra morte. Eu não tô nem aí pra sorte"...

... e com um bobo sorriso no rosto.
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Metalinguagem:

quinta-feira, 16 de julho de 2009

O Porta Curtas e o "Meow"

Eu conheci o Porta Curtas na faculdade, por meio da professora Adriana Nogueira, enquanto eu cursava a disciplina de Telejornalismo II, relacionada com a produção de documentários.

Confesso que, à epoca, não dei muita bola. Entrei uma ou duas vezes para procurar algum curta que tivesse a ver com o nosso megalomaníco projeto, mas nem chegava a assistir a um filme completo.
Agora, como estou com uma certa "coceira" de fazer um documentário, tenho entrado sempre no site e descoberto muita coisa boa.

O curta abaixo (uma animação chamada "Meow" e dirigida por Marcos Magalhães) é um dos que mais gostei. Trata-se da história de um gato que é repentinamente obrigado trocar seu leitinho por uma certa marca de refrigerantes (em termos metafóricos, é possível fazer algumas interpretações sobre o papel do gato e das "mãos" que o alimentam, mas deixarei isso para uma próxima postagem). Reparem na caracterização da cidade no "plano sequência" inicial, principalmente nos tipos que são obrigados a fugir da polícia:



Veja em boa qualidade neste link

"Se acostumou sem querer ao salto alto, salário baixo e à vida dura" diz a letra da música "Vida Diet", composta por John Ulhôa e presente no belíssimo disco "Toda Cura Para Todo Mal", do Pato Fu, lembrando que, se vivermos por inércia, "a gente se acostuma a tudo, a tudo a gente se habitua".
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Metalinguagem: também indicaria os curtas A Pessoa É Para o que Nasce, que deu origem ao longa homônimo de Roberto Berliner; Uma Saída Política, de Arnaldo Galvão, outra engraçada animação a respeito do papelão que fazem os políticos em época de campanha; e Cartão Vemelho, de Laís Bodansky, que apesar de machista em certo sentido, foge do moralismo.

quarta-feira, 25 de março de 2009

Galeano e Tom Zé

Como todo moleque, eu queria ser jogador de futebol quando crescesse. Acho que sonhei com isso dos 7 aos 13, 14 anos.

E, obviamente, eu não queria ser lateral direito nem voltante nem zagueiro. Inspirado no meu ídolo Evair, eu gostaria de ser o centro-avante, jogar com a nove às costas e marcar muitos gols com a camisa do Palmeiras.

O meu sonho não se concretizou (como o de 99% dos moleques brasileiros - do 1 % restante, cerca de 99% se fode jogando em timecos e recebendo salários miseráveis e atrasados) por diversos motivos.... mas de tanto jogar e gostar de futebol, eu até sabia dominar bem a bola, dar um passe preciso, desarmar, chutar com as duas pernas. Depois, quando essa idéia sumiu da minha cabeça, eu esquecia de meus sonhos de artilheiro e sempre pensava:

-Porra, mas eu até que jogo bem... eu não seria um craque, mas poderia até jogar profissionalmente. Dava para ser um cara tipo o Galeano.

Galeano foi um volante do Palmeiras que era limitado tecnicamente, mas se não fosse por ele, o time não teria vencido um dos jogos de maior importância na história recente do clube: a semifinal de libertadores de 2000, contra o do Corinthians - ele fez um gol decisivo de cabeça, que levou a decisão aos pênaltis, na qual Marcos defendeu uma cobrança de Marcelinho e classificou o Palmeiras às finais (veja os gols abaixo)



O cara não era um ícone do futebol, mas jogou num time grande, foi ídolo, dava o sangue em campo e será eternamente lembrado positivamente pela torcida do Palmeiras.

Bom, mas por que estou dizendo isso?! O motivo é que eu estava assistindo ao documentário "Fabricando Tom Zé", de Décio Matos Jr (veja o trailer abaixo), quando o compositor baiano disse que era japonês (eu já falei disso num post - clique aqui e leia-o). Mas eu comecei a rachar o bico quando ele comentou que o seu trabalho era "parecido com o do jogador Galeano", que se esforçava pra caramba já que não tinha a genialidade dos craques.

Eu não tenho a pachorra de me comparar a Tom Zé (que inclusive fará um show aqui em Suzano na semana que vem), mas considero que a tal "genialidade" (se é que ela existe) pode sim ser advinda de muita labuta. Tom Zé é mais genial do que os que se dizem gênios da MPB ou do Tropicalismo, na minha opinião.

A genialidade de Tom Zé está diretamente ligada ao materialismo. Ele percebe o óbvio que todos fazem e tenta realizar algo diferente. Para isso, usa o tal "esforço de Galeano".

Talvez seja uma questão de organização de repertório cultural e percepção das possibilidades à sua volta para que a tal criatividade surja e se aplique.

Divagações à parte, fica a dica de um belo documentário.


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Metalinguagem: o Raiz Social, obra criativa em que tive uma participação importante e da qual me orgulho de ter participado e ter sido um dos fundadores, foi um trabalho coletivo oriundo de muita "galeanisse", tanto na ideia inicial, quanto na execução e nas posteriores críticas.

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009

O cutucão de Glauber



Primeira parte do curta "Di-Glauber"

Acabo de assistir a um filme que há muito tinha baixado em meu computador: "Glauber - Labirinto do Brasil", um documentário sobre a vida artística explosiva de Glauber Rocha, um dos mais consagrados cineastas mundiais.

Creio que só assisti a dois filmes do dito cujo: Deus e o Diabo na Terra do Sol e Terra em Transe. Apesar de instigantes, os dois são muito densos, difíceis, metafóricos. É necessário pensar e discutir muito para chegar a alguma conclusão sobre as obras (coisa que não estamos acostumados a fazer com os filmes comerciais, diga-se de passagem).

Mas o que me chamou atenção na vida do cara foi uma certa magalomania que permeia todas as fases de sua história. Às vezes parece bom, porque Glauber tinha tanta certeza de estar fazendo a coisa certa em suas atitudes, em seus projetos, que acabava convencendo todos a sua volta de que determinada empreitada era realmente muito grandiosa.

Por outro lado, idéias estapafúrdias lotadas de concertezismo também tiveram ressonância na cabeça do cineasta, um artista que se dizia revolucionário, mas que chegou a acreditar que o governo do general Figueiredo, no final da ditadura militar, caminhava para o socialismo.

Mesmo com pensamentos contraditórios e megalomaníacos, Glauber me cutucou. De tanto se afirmar, ele te faz pensar se você realmente está fazendo algo que gosta e que acredita ser importante. É como se ele dissesse: fiz um filme revolucionário com 24 anos de idade, e você? O que você vai fazer para concretizar o que você acredita?



Para responder a Glauber, preciso pensar muito. Já tenho planos, mas é necessária uma lapidação. Algumas coisas em comum, como a questão da comunicação e de rompimento com o "imperialismo" de que Glauber tanto fala estão em meus planos; mas outras, como o estreitamento maior com a questão popular, algo que o cinema-poesia do cineasta baiano não conseguiu fazer, fazem parte da espinha dorsal do que eu quero para a minha vida.

Espero relatar mais detalhes de tais planos em breve, mas para isso, é preciso pensar muito, além de estudar em dobro.
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Metalinguagem: post relâmpago, escrito em 5 minutos. O filme Di-Glauber foi feito no enterro do artista plástico Di Cavalcanti e ganhou prêmios internacionais de cinema, mas sua exibição foi proibida pela família do pintor.

segunda-feira, 26 de janeiro de 2009

"Qual é a ideologia do Lula?"


O título deste post foi a pergunta que ouvi de um dos entrevistadores tucanos do programa Canal Livre (que vai ao ar sempre nos domingos à noite) durante uma retrospectiva das melhores entrevistas de 2008.

O entrevistado era Fernando Henrique Cardoso.

FHC pode ser um grande tucano reacionário, mas não é nada bobo. Sociólogo formado pela USP, ele conhece Lula (dos tempos da ditadura) e tem embasamento teórico e de convivência para responder tal questionamento.

O que ele disse foi mais ou menos assim:

"O Lula é senso-comum. Digo isso sem ser pejorativo. Ele tem uma formação católica, acredita que faz o bem. Ele não enxerga o mundo pelo viés da luta de classes. Simplesmente pensa que é possível resolver qualquer problema por meio da conciliação. Para Lula, colocar todo mundo para conversar ao redor de uma mesa e chegar a um consenso é a grande estratégia política".



O pior é que é assim mesmo que ele pensa. Dá para ver isso claramente em alguns filmes, como em "ABC da Greve (sobre as greves do fim da década de 70, no ABC)" e "Entreatos (sobre os últimos dias de Lula antes de tomar o poder como presidente, em 2002)". Até quando opinou sobre o massacre de Israel na Faixa de Gaza, Lula disse que seria bom que todos "sentassem à mesa para conversar e chegar a um acordo".

Não vou me alongar no assunto porque não quero revelar partes importantes dos filmes citados. Mas mesmo não sendo um expert em sociologia e política, sei que existem interesses irreconciliáveis. Tentar conciliar os interesses da classe trabalhadora com os da classe dominante nunca trará os mesmos benefícios para ambas.
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Metalinguagem: já faz um tempo que eu queria escrever sobre isso - o assunto estava quase escapando da minha cabeça, mas consegui trazê-lo e pari-lo

sexta-feira, 31 de outubro de 2008

Pra Quem Gosta de Pandeiro

No momento estou me dedicando a aprender pandeiro. Tenho me baseado na vídeo aula de Paulinho Silva, deste site aqui, e praticando em um instrumento emprestado. Como um bom Inimigo do Ritmo, com I maiúsculo, os percalços têm sido grandes, mas nada maior que minha teimosia pela aprendizagem.

Sexta-feira passada, em Rio Claro, tive o privilégio de acompanhar a apresentação do conjunto Epóca de Ouro, vanguarda do chorinho, criado por Jacob do Bandolim (que ainda desconheço mas que parece ser uma lenda) e que reuniu e reúne grandes músicos brasileiros. Um deles é Jorginho do Pandeiro.

Poucas vezes vi alguém tocar tão à vontade e demonstrar um domínio tão pleno de um instrumento como Jorginho do Pandeiro, diante dos seus 70 e tantos anos de idade que não sei qual é. Como minha capacidade de descrição via palavra escrita é limitada, deixo que o You Tube faça esse trabalho por mim.

Abaixo segue um trecho do documentário "Brasileirinho", em que Jorginho do Pandeiro dá entrevista e mostra um pouco de seus dotes:

domingo, 12 de outubro de 2008

Ensaio Sobre a Cegueira


Nunca li o livro, como um bom universitário relapso, mas ontem assisti ao filme no cinema. E fiquei com vontade de ler o livro.

O filme, do nosso tucanão Fernando Meireles (que hoje declarou na Folha que votará no Kassab pra que ele mantenha a "boa equipe do PSDB" na prefeitura de São Paulo), é mais uma daquelas "histórias-metáforas" da sociedade humana. Sabe filmes como Dogville? Assim.

Apesar de bem feito, Ensaio Sobre a Cegueira me tocou menos, muitos menos que, por exemplo, hmm, Dogville. Algumas cenas são bem chocantes, mas, em geral, não passou pela minha cabeça nenhuma frase do tipo "genial!" ou "que interessante!". Até dei aquela pausa antes de me levantar da cadeira, ao término da sessão, pra ver se vinha algo, mas niente. Aliás, sei lá porque estou escrevendo sobre o filme.

Assim que ler o livro, escrevo novamente.

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Ps1: Mas hoje, nas palavras da análise de um amigo feita do livro, captei um ar de genialidade de Saramago ao compor Ensaio Sobre a Cegueira. Segundo esse meu amigo, é interessante ver a força das relações simbólicas para a sobrevivência e avanço do Capitalismo. Basta sumir com um sentido que sustenta essas relações simbólicas - como no caso a tirar a visão -, que o sistema entra em colapso. Não é exatamente assim, mas é mais ou menos isso.

Ps2: Se no filme, de repente, as pessoas passam a ficar cegas, na minha vida real aconteceu algo similar. De repente, me vi daltônico. Na verdade acho que sempre fui, mas descobri há pouco mais de 3 semanas, fazendo este teste aqui. Só consigo ver um mísero número, no quarto círculo. E meu irmão também fez a mesma descoberta, um dia depois de mim!

segunda-feira, 1 de setembro de 2008

Pensar...

Nos primeiros anos de faculdade, eu não pestanejava. Sempre que saía de casa para o longo caminho até a faculdade (que percorria a pé, para exercitar-me), metia os dois fones no ouvido e começava a viajar no meu próprio mundinho musical.

É bom. Como diz um amigo meu, o Gaba, é como se você estivesse num clipe. Você tenta caminhar no ritmo da música, canta junto, aprende melhor a letra e até reflete sobre ela, quando a operação já não se tornou tão automática.

Mas de uns tempos para cá, tenho preferido o silêncio. Ou melhor, o observar. Eu sempre pensava nisso quando pegava os trens metropolitanos de Suzano. Será que eu escuto música ou reparo na conversa dos outros, tento trocar uma idéia com alguém? Rolam tantas coisas interessantes no óbvio, no cotidiano, que realmente me dá uma preguiça de ouvir música, apenas para reparar nos outros.

Certa vez, no curso de locução do Senac, a professora psicóloga disse que quem ouve muita música tem medo de enfrentar seus problemas pessoais, os conflitos dentro da cabeça.

Acho que não sofro desse mal. Na verdade, a preguiça de ligar a música para sair talvez seja uma mania de pensar, viajar.

Por falar em viagem, dê uma olhada no filme mais viajante de todos: Waking Life. Na parte a seguir, a moça fala sobre como as palavras representam sentimentos. Que loucura!
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Metalinguagem: esse era um assunto que estava na lista de coisas a serem faladas há muito tempo. Funcionou como uma matéria de gaveta, no jargão jornalístico.

quinta-feira, 17 de janeiro de 2008

17 dias, 2 livros, 6 filmes, 1 jogo de futebol

Esse é meu saldo "cultural" até aqui nesse ano. Abaixo segue a relação de cada livro, filme e jogo de futebol, com um breve comentário pra cada:

Livros

Ilusões Perdidas, de Honoré de Balzac: li-o em umas 3 sentadas, num único dia. Não gostei muito do estilo, mas achei interessante pelo fato de tratar, entre outras coisas, sobre o mundo impiedoso e cheio de interesses que marcou a imprensa na França no século XIX. Pelo visto, a coisa não mudou muito de lá pra cá.

Mosca Azul, de Frei Beto: desbancou Veias Abertas da América Latina, de Eduardo Galeano, como o melhor livro não-ficção que já li. Mosca Azul faz uma reflexão sobre o poder e suas tentações, sobre o PT e sua deformação sofrida no caminhar rumo ao governo, sobre propostas por uma sociedade realmente democrática, além de várias outras coisas. Você termina o livro querendo ler Maquiavel, de tanto que é citado. Definitivamente vou lê-lo de novo muito em breve.

Filmes

Profissão Repórter: tão chato, mas tão chato, que dormi várias vezes do início ao fim. Se bem que já dormi em vários filmes bons, portanto isso não é bem lá um critério...mas que é muito chato, isso é. Com Jack Nicholson.

Sobre Café e Cigarros: pouco mais de meia dúzia de conversas reunidas em um filme em que os únicos elementos obrigatórios são justamente os que dão nome ao filme. Algumas histórias são maçantes, mas outras são sensacionais. Sem falar que as imagens são feitas em um preto e branco impecável. Encomendo e recomendo!

A Culpa é do Fidel: tão ligado Machuca? Esse filme segue a mesma lógica: a política vista sob perspectiva de uma criança. Só que esse é muito mais engraçado e, de certa maneira, mais
crítico sobre algumas questões que envolvem a dualidade capitalismo x comunismo. Valeu o ingresso de cinema.

Sombras de Goya: filme de época, que se passa no período napoleônico, na Espanha, quando a Santa Inquisição tenta voltar à ativa. Apesar de depois, lendo críticas, eu ter realmente constatado falhas no roteiro e uma má atribuição de papel a alguns personagens (como o do próprio Goya, pasmem), a película fez valer os 8,50 gastos. Odeio jargões de críticos de cinema, mas tenho que dizer que o figurino é estonteante e as atuações de alguns dos atores são irretocáveis. A cena que encerra o filme é surreal.

O Nome da Rosa: fazia uma caaaara que queria ver esse filme. Me decepcionei. Ao final, comecei a achar que a fama de O Nome da Rosa deve ser mais pelo livro do que pelo seu homônimo da sétima arte.

Estado de Sítio: bom, muito bom, apesar de me questionar enquanto assistia se eu não estava me forçando a achar bom. É do Costa Gavras, diretor bastante renomado pelo cinema político. O filme é uma crítica ao período ditatorial na América Latina, que teve benção e dízimo dos Estados Unidos. Recomendo, mas assista-o de dia, pois o risco de adormecer (não tem muita trilha sonora) não é pequeno.

Jogo
Rio Claro 2 x 0 Paulista: poucas horas antes me peguei com gripe, poucos minutos antes não encontrava o ingresso (obrigado mãe) e com o jogo já começado começou a chover. Doente e no setor descoberto, me fodi. Estou mais gripado ainda, me sinto totalmente indisposto, só que feliz - afinal, depois de tanto tempo, pude ver o Azulão aniquilar mais uma vítima, nas estréias dos refletores do Shimitão.
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PS1: amanhã tem início meu retiro espiritual de 14 dias em Ubatuba. Durante esse tempo, pretendo ler, pelo menos, 3 kilos de livros. Vou começar com Auschwitz - A Doctors Eyewitness Account, de Dr. Miklos Nyiszli, em inglês. Haja dor de cabeça.

PS2: outros livros que estou levando: Rota 66, Ensaio Sobre a Cegueira, Raízes do Brasil e Crime e Castigo.
PS3: ainda nessa idéia de leituras em inglês, me superestimei totalmente ao tentar ler Crime and Punishment, de Dostoiévski. Eram cerca de 700 páginas. Desisti na terceira, depois de uma piscada de 10 segundos, às 3 e 35 da manhã da última terça.

quarta-feira, 9 de janeiro de 2008

Estou viciado em documentários

Comecei a assistir documentários nas férias de janeiro do ano passado. Isso porque a Tati tinha acabado de ter aula de Telejornalismo II e ficava falando de diversos filmes de tal estilo para mim.

Nessa época, eu assisti Justiça, Ônibus 174 e Prisioneiro da Grade de Ferro. Assistia, achava legal e só.

Depois das aulas de Telejornalismo II em que tive contato com diversos documentários consagrados, com alguma teoria sobre o assunto e fiz o meu próprio doc, comecei a enxergar o lance com outros olhos.

Tento prestar atenção no modo como o roteiro é feito, nos ângulos utilizados para a filmagem, na trilha sonora, mas o que mais me atrai no documentário é o fato de ser uma coisa real. É claro que as pessoas entrevistadas por um jornalista com uma câmera interpretam personagens e também “atuam”, e que o filme é uma produção. Mas é muito foda você conseguir depoimentos que não foram combinados e que expressam o sentimento (mesmo que “interpretado” para as câmeras) daquelas pessoas. Você tem que fazer um filme, mas não sabe se aquelas pessoas vão falar coisas legais ou não. É uma tensão enorme e que muitas vezes expressa um sentimento impossível de se conseguir em filmes de ficção.

O pior é que na locadora que eu pego filmes, os documentários são relegados a um espaço secundário. Eu sei que esse tipo de produção não é muito popular, mas depois de assistir a um filme fudido, como Fala Tu, eu penso: “Porra, mas por que um documentário desses não é popular?”

Para mim, a resposta é a seguinte: pensa-se que documentário é aquele tipo de filme chato sobre “A vida sexual dos albatrozes das Ilhas Galápagos”, como diz minha tia Beth. Ou seja, muitos pensam em documentários como filmes chatos, o que é um erro hediondo.

Só para fazer jus ao título desse post, aí vão os meus “conhecimentos adquiridos sobre documentários nestas férias: li Introdução ao Documentário Brasileiro, de Amir Labaki e assisti aos filmes Fala Tu, Cabra Marcado Para Morrer, Santo Forte, Motoboys Vida Loka e O Cárcere e a Rua.

Para fechar o post com chave de ouro, assita ao trailer do novo filme do Coutinho, Jogo de Cena (que mistura ficção com realidade), que eu ainda não assisti, mas ouvi dizer (do Alan) que é muito bom.


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Metalinguagem-dica: descobri o site www.eduardocoutinho.blogspot.com em que é possível baixar diversos filmes do Coutinho. Eu já baixei dois (um tava com pau, mas valeu a pena).