Mercy Zidane: jornalismo
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sábado, 18 de março de 2017

O Sorriso do Morto

Saiu do forno o meu primeiro fanzine de história em quadrinhos. "O Sorriso do Morto" foi concebido no segundo de três dias da oficina "Historietas Autobiográficas", ministrada por Power Paola, no Sesc Pompeia, em fevereiro, mas só ficou 100% pronto agora em março.

Uma das formas da autora de Vírus Tropical estimular a criatividade dos participantes para a elaboração da historinha final era elencando temas em uma lousa. Um deles era "caminho"... E, quando li a palavra, o "causo" surgiu, enfocando a rotina jornalística, um evento sobernatural e um desfecho inusitado.

Veja a história completa abaixo e, se quiser uma cópia impressa, é só entrar em contato comigo. Agradeço quem puder compartilhar o trabalho para ajudar na divulgação. A outra historinha feita na oficina está aqui.

















segunda-feira, 7 de julho de 2014

Um pouco sobre esquerda, estética e conteúdo


Quem começa a militar em partidos e organizações de esquerda, costuma o fazer por uma mistura de convencimento racional e paixão pela vontade de mudar o mundo.

É uma relação dialética entre as duas coisas: não dá para se convencer sem sentir a gana de construir um futuro diferente na atuação diária e também não há modo de ter só a paixão e não pensar estrategicamente, aprendendo com as lições do passado e verificando quais dos diversos caminhos propostos por várias visões valem a pena.

O problema é que, infelizmente (apesar da conjuntura estar se alterando), ainda são poucos os comunistas neste mundo. Quando essas ideias escapam dos espaços mais tradicionais de atuação da esquerda, como certos sindicatos, centros acadêmicos, movimentos sociais, etc., há um grande ruído comunicacional, principalmente quando falamos de mídia (jornal, vídeo, internet).

Excluindo as correntes que se adaptam ao que a maioria pensa sem fazer as críticas necessárias, as demais chegam com um discurso que soa, de maneira geral, como um romantismo abnegado de quem dedica sua vida a uma causa nobre, como se bastasse gritar palavras de ordem com várias exclamações, citar exemplos desconexos e siglas ininteligíveis para fazer uma pessoa perceber os absurdos do sistema e ideias complexas que podem superá-lo.

Mas, infelizmente, um punhado de comunistas não faz revolução (desculpe o trocadalho, foi inevitável) - e se faz, ela já nasce degenerada, como no caso da Revolução Cubana, em que os trabalhadores não foram sujeito ativo do processo revolucionário e acabaram sendo governados até hoje por uma burocracia que se perpetuou no poder por ser a parte mais ativa na derrubada do antigo regime.

Ou seja, de qualquer jeito, é preciso convencer mais pessoas de que certas ideias que parecem absurdas e que questionam a raiz dos problemas do capitalismo, como estatização dos transportes sob controle de trabalhadores e usuários, autogestão de fábricas por parte de trabalhadores, etc., não são. E, para isso, o trabalho de base é importante, mas o uso aprimorado e criativo de ferramentas de comunicação também é, porque pode ser eficaz  tanto na relação diária nos locais de trabalho e estudo, quanto de forma mais superestrutural, difundindo conteúdo pela vastidão do mundo virtual.

É muito difícil puxar pela memória uma produção gráfica ou audiovisual da esquerda que seja criativa e abra portas para novas cabeças pensarem a partir dessas ideias. Geralmente os jornais são grandes bíblias, os vídeos têm sindicalistas falando por vários minutos, usando e abusando dos clichês que mais afastam do que aproximam. Pouca linguagem inovadora, poucas sacadas, muita repetição. E o pior é que as técnicas para fazer algo diferente já estão bem difundidas.

No Brasil, quem foge dessa linha é Rafucko, um militante independente que faz vídeos muito criativos e irônicos, com um conteúdo político muito forte. Outro ponto fora da curva é a websérie Marx ha vuelto (da qual falei aqui).

Bom, e eu disse tudo isso para mostrar que, dentro das minhas pequenas possibilidades, tento estimular um jeito diferente de fazer conteúdo dentro da esquerda, a partir da também pequena organização em que atuo (que ainda está longe de ser exemplo em termos comunicacionais). Como tenho mexido com audiovisual, tentei produzir formatos novos de vídeos em algumas oportunidades. Até agora, o que deu mais certo foi o da visita do papa ao Brasil. Mas, na última semana, fiz um vídeo que tenta criticar a repressão do período da Copa de um modo diferente: com a narração futebolística entra os times dos manifestantes e da repressão:


quarta-feira, 18 de junho de 2014

Redes sociais, fragmentos e contrapontos


Um vez, faz um tempinho, eu escrevi sobre o Twitter, dizendo que ele é um reflexo de nosso tempo: uma ferramenta ágil e superficial - mas que, claro, possui pontos positivos. Tenho muitos amigos que usam e dizem que serve como um grande selecionador de artigos e notícias. E mesmo se não servisse para nada de "útil", todo mundo tem o direito de gastar seu tempo livre como bem quiser.

Mas e a grande rede social hegemônica que desbancou a soberania então inquestionável do Orkut no Brasil? O Facebook, se você for para para pensar, não é muito diferente disso. Tem uma linha do tempo com milhares de postagens de centenas de pessoas diferentes - e poucas delas, imagino eu, passam de 140 caracteres. Quando ultrapassam esse número, é bem provável que o alcance diminua. Há muitas fotos (a rede está cada vez mais dando prioridade às imagens), links (esses sim com artigos e matérias que podem ser mais desenvolvidos) e um espaço também crescente para vídeos. Resumindo, é um emaranhado de fragmentos de onde é possível pinçar coisas legais depois de gastar bastante tempo girando a rodinha do mouse.

E excluindo o fator essencial do Facebook  (o seu aspecto de rede), é possível traçar uma analogia dessa ferramenta com uma mais informativa e que está rareando: o jornal impresso. Ele tem como premissa básica "botar ordem" no caos do mundo e, para isso, fala um pouquinho sobre cada coisa. Esse pouquinho era bem maior até a década de 60, aqui no Brasil. O leitor se deparava com imensos blocos de texto logo nas capas e as matérias tinham tons opinativos mais fortes. O padrão do jornalismo estadunidense "objetivo" e "imparcial" do pós-guerra (com muitas aspas porque não existe objetividade e imparcialidade no jornalismo) passou a imperar a partir de então e as portas foram se abrindo cada vez mais para fotos, ilustrações e design em geral. E os textos foram ficando menores.

Fomos seduzidos pelas imagens e pelas lindas curvas do design. Por quê? Porque elas são informativas também e já nos dão boa ou má impressão de algum conteúdo mesmo que não tenha havido contato nenhum com ele. Elas são como um cartão de visitas sobre o que será discutido. Às vezes precisamos fingir que a diagramação não está tão ruim e ter força de vontade para ler um texto de alguém que você sabe que tem bom conteúdo, mas que subvaloriza a informação "imagética".

Por que o cérebro do ocidental (será que é só do ocidental?) funciona assim? Acho que tem a ver com a vida na sociedade moderna, com a correria das grandes cidades, com a falta de incentivo à reflexão de uma sociedade cujo objetivo principal de quem tá lá no alto é só reproduzir o que já existe e embolsar mais lucro, mas também penso que se a sociedade fosse diferente e mais reflexiva, com maior participação de todos sobre as decisões fundamentais, certamente haveria discussão e muito estudo sobre o poder das imagens e do design. Não dá para fazer a oposição simples conteúdo (profundo) x forma (superficial), já que há complementariedade na relação e existem formas profundas e conteúdos superficiais.

E se o grande problema das redes sociais é a captura de informações pessoais e a falta de privacidade, por outro lado, elas possibilitam, a partir do domínio de algumas técnicas, criar contrapontos de debate e de concepções da realidade que não estão no mainstream, vide a organização dos protestos brasileiros de junho de 2013, canais de música independente e até políticos, como o do humorista carioca Rafucko.

Pois bem, por tudo isso e porque tô tentando levar meu blog mais a sério, lanço hoje a página do Mercy Zidane no Facebook. Lá, vou tentar contribuir pra esse contraponto com as caraminholas que penso por aqui e também com outros conteúdos de blogs amigos que eu ache legal .Copio o Chespirito em sua primeira postagem no Twitter (ele tinha 82 e eu tenho 28): sigam-me os bons!

sábado, 7 de agosto de 2010

Programáticas, pragmáticas

Quando acabou o primeiro debate entre quatro dos candidatos às eleições presidenciais deste ano, na Bandeirantes, ocorrido no dia 5, o diretor de jornalismo da emissora, Fernando Mitre, deu uma entrevista aos próprios repórteres que coordena.

Disse que, no debate, não ocorreram xingamentos pessoais, baixarias, enfrentamentos ríspidos. Em outras palavras, não rolou o dedo na cara, o embate direto. Uma certa cordialidade imperou entre os três postulantes mais bem contados nas pesquisas. Mitre ainda afirmou que o debate inaugurou a discussão programática entre os dois principais candidatos (Serra e Dilma), definindo tal termo como as principais propostas práticas de cada presidenciável para os próximos quatro anos.

Nao li os programas de governo de Serra e Dilma. Fiquei sabendo pelos jornalões que ambos são parecidos, genéricos e curtos. É fácil de se constatar que as campanhas estão mais pautadas no corpo a corpo, na figura pessoal, na imagem televisiva, nas promessas de entregas de escolas, hospitais, bolsas-família, nos beijinhos nas crianças, na continuidade, na polícia "apaziguadora" do que numa discussão sobre o que se quer para o futuro. Na minha opinião, o jornalista confundiu o programático com o pragmático. Muito mais do que prédios e medidas práticas, o programa é o que precede as ações e norteia um partido, são seus ideais. Os de Serra, de Dilma e da ecocapitalista Marina Silva convergem, como bem frisou Plinio.

Por falar em Plínio, achei que ele fez bem em pontuar algumas questões (o fato de todos serem farinha do mesmo saco, citar a impossibilidade de concilar desenvolvimento capitalista e sustentabilidade, tocar na questão da jornada de trabalho), mas acabou vestindo o papel de palhaço ao adotar um tom irônico. A mídia, óbvio, pintou-o como franco atirador, "velho louco". Penso que ele poderia ter sido mais incisivo e menos complacente. Poderia ter explicado melhor, mais didaticamente, como a sociedade é dividida por classes e como os interesses dos patrões divergem dos interesses do povo. Ficou falando em muros, em desigualdade, mas não disse claramente que Serra, Marina, Dilma e Lula estão do lado oposto ao dos trabalhadores.

Por mais que Plinio destoe dos demais candidatos, ele não rompe de fato com o modelo da "democracia" estabelecida.
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Metalinguagem: não assisti ao debate inteiro devido ao jogo da Libertadores.

quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

As desculpas inócuas de Boris

No segundo post do ano, pensei em falar sobre mil coisas, mas escolhi algo relativamente velho, se levarmos em conta a velocidade fútil das informações jornalísticas.

Na semana passada, Boris Casoy, âncora televisivo renomado na grande mídia, cometeu a gafe mais preconceituosa de 2009 ao humilhar em rede nacional os garis participantes do vídeo promocional de ano novo da TV Bandeirantes, antes do intervalo do Jornal da Band.

Erro cometido, Boris veio a público se retratar no dia seguinte, no mesmo programa. Como um jornalista "ético", limitou-se a pedir desculpas aos garis e aos telespectadores pelo vazamento de som e por sua frase infeliz.

Agora imagine a cena análoga: você tem um amigo negro e você não é negro. Ao se despedirem, você cumprimenta seu amigo, mas faz um grave xingamento racista a ele. O rapaz ouve sua frase, vai embora e tira satisfação com você no dia seguinte. Como resposta, você se desculpa e diz que não era para ele ter ouvido.

Boris não se dignou a "cutucar a merda" porque sabia que, mesmo se apresentasse argumentos, ele não teria defesa. Afinal, como o âncora se salvaria de uma fala tão preconceituosa, incrustada em seu pensamento aos 68 anos de idade? Mesmo assim, a frase e o pedido de desculpas ridículo mostraram a cabeça racista da elite brasileira que, na frente das câmeras, prega o discurso da igualdade, mas nas conversas de boteco, na informalidade, na vida privada, trama e executa a manutenção ou o aumento das disparidades.
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Metalinguagem: post relâmpago também inspirado pela postagem do Byron & Shelley.

sexta-feira, 16 de outubro de 2009

"Você está demitido"

Pois bem, assim como eu disse aqui que fui contratado por um jornal regional no mês de janeiro, revelo que serei demitido no fim de outubro (estou cumprindo aviso prévio em casa). Motivo: enxugamento da redação.

Na ocasião da postagem linkada acima, afirmei que eu teria a possibilidade de conhecer um pouco mais o contexto da minha formação inicial como indivíduo, mas com outros olhos, pois estes teriam sido muito mais abertos durante os anos de graduação em jornalismo, em Bauru.

Presenciei diversas situações de trabalho e cobri pautas muito distintas nesses dez meses de labuta diária. Não pretendo, nesta postagem, fazer um balanço das coisas boas e ruins da minha primeira experiência profissional. Apenas quero afirmar que a exploração foi o que mais me chamou atenção ao longo desse período.

Tal exploração teve dois canais mais evidentes, sob a minha perspectiva: a utilizada por políticos para formar currais eleitorais, passando a ideia de que eles são a única esperança de melhoria de vida a população pobre (e os jornais, utilizando recursos oriundos de editais, contribuem muito para isso); e a sofrida por mim no local de trabalho, onde horários eram extrapolados com frequência (sem compensação financeira), além da subestimação intelectual por parte de superiores hierárquicos.

A percepção sobre a exploração revela que a formação adquirida em Bauru (cuja maior parte não é oriunda das aulas, diga-se de passagem), foi preponderante, como eu havia previsto, para meus novos olhares por estas bandas. Juntando o caldo ideológico com o ano em minha cidade natal, como repórter, fiz duas escolhas para o próximo ano: estudar ciências sociais e morar em São Paulo.

Por mais complicada que possa ser a vida de quem estuda e trabalha (pretendo arranjar um emprego em São Paulo), a possibilidade de usar o cérebro com uma frequência maior, mesmo que isso não tenha nada a ver com felicidade (o estudo não é um meio de chegar a ela, e sim a maiores responsabilidades), me deixa com vontade de cantar, como os Novos Baianos, que...

"...Esse ano não vai ser igual àquele que passoooou, o que passsou".
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Metalinguagem: só escrevo sobre fatos extremamente pessoais, como o caso deste post, quando são reviravoltas importantes para quem acompanha os textos do blog - pois eles refletem o cotidiano.

quarta-feira, 29 de julho de 2009

A crise e uma de suas consequencias esquecidas

Dizem os empresários otimistas que o período de crise passou e que agora é preciso pensar no "pós-crise", afinal, o Brasil pode crescer até 1% este ano, segundo Guido Mantega (foto), chutando a estagnação prevista há pouco.

O engraçado é que os jornalões, os jornalecos e seus analistas se prendem aos números do binômio crise-demissões, sem verificar as consequencias que essa relação proporciona às pessoas de carne e osso.

Para ser prático, cito um caso que deixou meus colegas de trabalho um tanto assustados: nesta terça, na principal rua do comércio suzanense, (rua General Francisco Glicério - foto) uma atendente de 32 anos foi baleada em plena luz do dia após sacar R$8 mil em uma agência bancária. Ela foi perseguida por dois assaltantes. Por ter reagido, acabou sendo baleada.

Uns podem dizer: "Ah, ela vacilou, não se pode tirar uma quantia tão alta". Sim, é verdade, mas não se trata de um caso isolado. Nesta matéria sobre o ocorrido, há um intertíulo em que os comerciantes da cidade expõe sua indignação com relação ao grande aumento da violência na região (a de maior concentração financeira da cidade) nos últimos meses.

Ontem mesmo, indo para o trabalho (na rua em que ocorreu o crime citado), fui alvo de uma cena pouco comum, pelo menos nos seis meses que estou trabalhando em terras suzanenses: um cara me parou na rua e perguntou se eu tinha "perdido" um relógio. Provavelmente era roubado e ele queria me vender.

No assassinato ocorrido em Suzano, a mídia local coloca a culpa na falta de monitoramento eletrônico e no pouco número de guardas rondando o centro da cidade. Assim, esquecem-se do que os jornalões também fingem esquecer: a criminalidade aumenta com o desemprego.

Ah, é que eles não podem se contradizer, pois "a crise já é passado" e o recente aumento no número de roubos e furtos na cidade seria apenas uma "coincidência", que deve ser combatida com repressão.

A crise está só no começo e os jornais não exergam o desdobramento mais evidente.
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Metalinguagem: com base no Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged), a cidade de Suzano e toda a região do Alto Tietê têm apresentado perda de postos de trabalho desde o início do ano. Apesar de haver recente redução das demissão, elas ainda superam as contratações. Créditos das fotos - Mantega: globo.com; rua de Suzano: mixsaopaulo.com.br

quinta-feira, 23 de julho de 2009

O estupro diário

Depois de ter entrado duas horas e meia mais cedo e ter saído três horas mais tarde no trabalho, estou sem a menor vontade de escrever. Portanto, serei breve.

Enquanto eu voltava para a casa, fiquei pensando em letras de música. No momento em que cheguei, olhei para o aparelho de som e, devido à raiva e ao abatimento adquiridos por motivos óbvios, resolvi ouvir um disco do Nirvana chamado "In Utero".

Baseado na livre interpretação, a música "Rape me" (que em português significa "Estupre-me") nunca fez tanto sentido para mim.

As degradações físicas e psicológicas (principalmente) que ocorrem no ambiente de trabalho têm muitas semelhanças com um estupro.

Abaixo, a letra da música traduzida. Mais abaixo ainda, um vídeo da canção.

Rape Me (tradução)
Nirvana

Composição: Kurt Cobain
Estupre-Me

Estupre-me, estupre-me meu amigo
Estupre-me, estupre-me novamente

Eu não sou o único yeahEu não sou o único yeah
Eu não sou o único yeah
Eu não sou o único

Odeie-me, faça e faça novamente
Prove-me, estupre-me meu amigo

Eu não sou o único yeah
Eu não sou o único yeah
Eu não sou o único yeah
Eu não sou o único

Minha fonte interna favorita
Eu vou beijar suas feridas abertas
Apreciar sua preocupação
Você sempre federá e queimará.

Estupre-me, estupre-me meu amigo
Estupre-me, estupre-me novamente

Eu não sou o único yeah
Eu não sou o único yeah
Eu não sou o único yeah
Eu não sou o único

Estupre-me (x9)



________________________Metalinguagem: e um detalhe: o meu trabalho é bem leve comparado com o do restante da população. A tradução foi tirada do letras.mus.br.

terça-feira, 14 de julho de 2009

Baile Funk? Só para ricos

Imagine o Antônio Ermínio de Moraes, o Eike Batista e o Roberto Justus conversando tranquilamente numa mega festa para 500 pessoas promovida por Luciano Huck, na Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro. Todos felizes, contentes, bebendo e comendo do bom e do melhor, quando, de repente, um policial do BOPE chega quebrando tudo e e gritando:

-Pode parar essa festa, porra!!! Vocês não têm autorização pra fazer essa merda!! Vocês não comunicaram o número de convidados às autoridades e, pelas minhas contas, os banheiros dessa porra são insuficiente pra todo mundo. Sem contar que essa musiquinha americana que vocês ouvem é a mais pura bosta!!!

Situação inconcebível, não é verdade? Só redigi esses dois parágrafos iniciais para ajudar a ilustrar a mais nova prova de como o Brasil é separado entre ricos e negros...digo, pobres. O que jamais ocorreria em qualquer festa dos ricaços é realidade nos morros cariocas. A Polícia Militar do Rio proibiu a realização de bailes funk em áreas violentas da cidade, a partir de ontem.

O motivo alegado: a lei.

Veja o que ela determina, de acordo com o site da Folha: "Segundo algumas normas da lei estadual 5.265, de autoria do ex-deputado e ex-chefe de polícia Álvaro Lins, para realizar um baile funk é necessário pedir autorização com 30 dias de antecedência, ter comprovante de tratamento acústico, ter um banheiro químico para cada 50 pessoas e câmeras no local, além de outras regras".

Em outras palavras, a lei torna ilegal qualquer baile funk fora das boates da área nobre da cidade, já que quem mora no morro não tem condição financeira de cumprir todas as determinações legais. Sem entrar no mérito da concepção do funk ou do que ele representa em termos de culto ao corpo, machismo, etc., esse ato da polícia se configura pura e simplesmente em preconceito.

E tem gente que acredita que vivemos numa democracia (com liberdade de expressão).
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Metalinguagem: além da notícia, minha outra inspiração foi o documentário "Blue Eyed", de Bertram Verhaag, que filma um workshop da professora estadounidense Jane Elliot. Nesse workshop, ela faz um exercício em que todos os participantes com olhos azuis são ridicularizados, considerados inferiores e humilhados. A ideia é fazer a pessoa sentir na pele, por duas horas, o que os negros sentem a vida toda. Crédito da foto: globo.com.

sexta-feira, 10 de julho de 2009

Diferenças geográficas entre favelas

(Ferradura, a maior favela de Bauru: o bairro existe há 15 anos e não tem asfalto. Em Ferraz, no Alto Tietê, a Vila Ayda tem pavimentação, mas os moradores correm o risco de despejo por ocuparem uma área da Companhia Paulista de Trens Metropolitanos)

Uma das experiências mais ricas que tenho como jornalista, aqui no Alto Titê, é visitar as ocupações urbanas ilegais que existem na periferia dessas cidades.

As visitas são muito rápidas, portanto, superficiais. Não me envolvo com a comunidade em questão e sequer sinto na pele seus problemas. Apenas ouço relatos e vejo manifestações. Mas com isso, é possível fazer certas comparações.

Apesar de ser garantido na constituição brasileira, o direito à moradia não existe no Brasil. Pelo contrário, é um modo de se comprovar que a nossa democracia não passa de uma grande piada. O fator econômico e a divisão extremamente desigual das propriedades empurra os pobres para reservas de mananciais ou terrenos de encostas, que também pertencem às elites locais. Sem escolha, as áreas são ocupadas. Alguns conseguem a escritura com muito sacrifício para continuarem morando em locais totalmente esquecidos pelo poder público, sem o mínimo aceitável de infraestrutura. Outros, são despejados como "invasores".

De forma empírica e com um pingo de teoria (o livro de Milton Santos, chamado Manual de Geografia Urbana), encontrei algumas diferenças entre as ocupações urbanas no interior e na região da grande São Paulo. O meu conhecimento interiorano é baseado nas visitas que eu fazia ao Ferradura, maior favela de Bauru, quando eu participava da construção de um jornal comunitário em tal bairro, além de certa noção superficial sobre outros bairros periféricos da cidade. Portanto, quando eu disser interior, entenda-se por Bauru. No Alto Tietê, como eu já disse, as visitas a regiões periféricas, como repórter, são minha base . Assim, faço três constatações, com respectivos exemplos:

-O poder público concede mais benefícios na Grande São Paulo: de maneira reformista e eleitoreira, os governos asfaltam e colocam galerias em terrenos onde há ocupações irregulares, coisa que nunca vi (nem ouvi falar) que tivesse ocorrido em Bauru. O maior acesso a recursos financeiros e menor extensão territorial das cidades do Alto Tietê podem facilitar tal trabalho. Ex: o negócio é tão interesseiro, que os políticos chegam a asfaltar ruas que sabem que serão desapropriadas, como acontece na Vila Ayda, em Ferraz;

-As associações de moradores são mais organizadas: poucos bairros de Bauru, que eu me lembre, tinham associação de moradores ativa. Aqui, poucos não têm. Talvez isso tenha ligação com o tópico acima. Como é mais fácil receber certas migalhas por estas bandas, a organização das pessoas dá mais resultados, mesmo que eles sejam ilusórios. Ex: no bairro de Palmeiras, em Suzano, a associação pediu asfalto ao prefeito, que cumpriu o prometido, pavimentando as ruas com material de péssima qualidade. Porém, como não havia nada antes, os moradores se contentaram;

-O número de "barracos" no interior é muito maior: grande parte das habitações que visitei no Alto Tietê é de alvenaria, fato pouco comum em Bauru. O subemprego na região de São Paulo é mais bem remunerado, o que permite a qualidade um pouco melhor das construções. Ex: conversando com um dos motoristas do jornal em que trabalho, quando estávamos num bairro periférico de Ferraz, ele constatou que a cor que predominava na paisagem era a laranja dos tijolos das casas recém construídas, mas sem acabamento.

A "coisa tá braba" para os dois lados, mas diferenças existem. As reivindicações da população pobre da periferia da grande São Paulo são muito específicas. As associações de moradores reivindicam direitos pontuais e as vinculações que possuem são geralmente com partidos como o PT, que dimiuíram muito a capacidade de mobilização popular nos últimos anos (como explica este belo artigo). No interior, por sua vez, o contato das pessoas pobres com partidos, sindicatos e associações é bem menor. Apesar da condição de vida ruim, algumas migalhas do governo federal (estilo Bolsa Família) fazem o papel de amansar o povo.
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Metalinguagem: não costumo escrever textos longos para não cansar o raro visitante deste blog, mas dessa vez não teve jeito.

terça-feira, 7 de julho de 2009

Bolo mais duro que pedra

No início da tarde de hoje, fui até a casa do "seu" Antônio Carlos, operador de empilhadeira e morador do Parque São Francisco, na periferia de Ferraz de Vasconcelos.

Ele fez uma reclamação para o jornal em que trabalho a respeito da promessa não cumprida pelo prefeito eleito de pavimentar a rua da casa dele, que é muito íngrime. A falta de pavimentação, obviamente, causa problemas. Um dos mais graves é a impossibilidade do caminhão de lixo descer a rua.

No Brasil e no mundo, devem existir mil histórias como essa (de políticos que prometem e não cumprem). Porém, o relato do Antônio Carlos se atentou a detalhes que revelam a falsidade e tornaram a entrevista muito engraçada. Confesso que comecei a gargalhar no meio da conversa. Aí vai um trecho de algo que consigo me lembrar:

"Em época de eleição, todos os candidatos vêm até aqui, apertam a mão de todo mundo, entram na casa das pessoas. A gente oferece um bolo de fubá mais duro que pedra e eles comem e acham gostoso. A gente serve um café amargo e frio, eles acham muito bom. Eles veem uma criança recém nascida e pegam no colo. O menino pode estar remelento, sujo, eles não ligam, falam que a criança é linda.

Depois da eleição, eles nem aparecem".
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Metalinguagem: a história de pegar criança no colo é velha, masa a do "bolo-pedra" eu nunca tinha ouvido.

sexta-feira, 3 de julho de 2009

Twitter: um reflexo de nosso tempo

A internet entrou na minha vida quando eu tinha uns 12 anos, lá em 1997.

As conexões eram lentíssimas e minha mãe só me permitia ligar o barulhento discador aos finais de semana, quando o "pulso" da discagem era mais barato.

Com a gradual consolidação da internet no mundo e no Brasil (apesar de não termos a universalização do acesso, o número absoluto de internautas brasileiros é grande), surgiram os blogs, que se proliferavam em progressão geométrica.

(Blog do Sakamoto: análises sobre a questão do trabalho escravo, reflexões acerca da sociedade de consumo e considerações sobre a política institucional e em movimentos sociais)

Foi uma febre! Todos falavam em blogs, exaltando suas maravilhas, como a facilidade de uso e rapidez de postagem. Qualquer um podia ter um blog.

Passada a euforia do momento, constatou-se que a grande maioria dos blogs acabava morrendo com o passar do tempo (assunto já abordado por mim nesta postagem). O "problema" é que um blog precisa ser alimentado. As ideias são pinçadas, pensadas, concatenadas, formatadas e postadas (claro que isso não se aplica a todos os tipos de blog, mas à maioria). Resultado: demanda tempo, um dos "bens" mais escassos da sociedade capitalista.

Foi então que inventaram o fotolog. A elaboração textual passou para o segundo plano, mas se criou uma limitação técnica. Tirar uma foto numa câmera digital automática é mais fácil do que escrever, mas a postagem é mais complicada, pois depende do download da foto. Sem contar que nem sempre é possível tirar boas fotos, muitos não têm camera e os que têm, não estão com elas em toda a parte. O blog ainda não havia sido batido, exatamente pela sua praticidade.

Para chegarmos ao twitter, presisamos retomar o raciocínio do quinto parágrafo: se o que mais falta em nossa sociedade é tempo, o que mais sobra é informação. Porém, trata-se de uma informação simples, curta, rápida e, sem sombra de dúvida, superficial.

(Twitter do Mano Menezes: a celebridade futebolística relata que vai treinar, viajar, jogar, descansar, etc)

Eis o twitter: um blog com possibildade de postagem de 140 caracteres de conteúdo, sem necessidade de formatação. O que as pessoas costumam fazer com 140 caracteres? Dizem que estão indo para o trabalho, comendo, tristes, cansadas... enfim, "contam" para os internautas suas aflições e sensações momentâneas em tempo real (com postagens por celular). É uma forma de descarregar o vazio da vida cotidiada.

Rápido, superficial, descarregador de tensões, com pouca possibilidade de reflexão. Twitter: um retrato do século XXI.

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Metalinguagem: Apesar de saber das limitações da ferramenta, não condeno o seu uso. Creio que ela possa ser importante em determinadas ocasiões em que se faça necessária uma comunicação rápida, como ocorreu recentemente na greve da USP.

quarta-feira, 24 de junho de 2009

Rápidas (e rasteiras) generalizações sobre a queda do diploma


Eis meu canudo. Parece, mas não há nenhum diploma dentro.

A discussão sobre a queda da obrigatoriedade de diploma para exercer a função de jornalista, de acordo com a decisão do Superior Tribunal Federal (STF), pode ser vista por alguns viéses, defendidos pelos seguintes grupos generalizados por mim:

-Jornalistinhas diplomados: jornalistas filhos da classe média e que, de maneira corporativa, querem garantir a sua reserva de mercado. Afinal, "estudaram por quatro anos", pagaram mensalidade ou passaram no vestibular. Apesar de só apreenderem/executarem as técnicas jornalísticas na faculdade e, via de regra, pensarem pouco na comunicação em geral, consideram essencial o papel de reprodutores de todo o jornalismo (ruim) que já existe. São contrários à medida do STF.

-Intelectualóides humanistas: estes acreditam que qualquer pessoa, desde que seja formada (não, não pode ser semi-alfabetizada, muito menos pobre) tem condições de exercer a função de jornalista. Do mesmo modo que os diplomados, acreditam que o jornalismo é uma mera técnica. Como tal, basta "aprendida em duas semanas dentro da redação". São favoráveis à medida do STF.

-Democratizadores da comunicação: acreditam que não há sentido em exigir o diploma de um grupo de pessoas que tenta se apropriar de técnicas jornalísticas (exaustivamente repetidas nos meios de comunicação) para expressarem a vontade de um determinado grupo, como ocorre em rádios comunitárias, jornais de bairro e sindicatos. Acreditam na comunicação como uma ferramenta. São favoráveis à medida do STF.

Eu me enquadro mais no último grupo. O único porém é o medo de que o jornalismo acabe sendo considerado, cada vez mais, como um simples conjunto de técnicas; e a comunicação, como uma ciência inferior.

A comunicação não é sinônimo de mídia burguesa. Ela é um processo de transferência de conteúdos e está contida em todos os ambientes. As técnicas existem, mas é preciso entender como elas agem na mente das pessoas, o porquê de o capitalismo ter consagrado determinadas padronizações e se é necessário mudá-las para realizar algo que seja mais emancipador. Enfim, não é num simples parágrafo como este que vou esgotar as possibilidades de estudos (realmente relevantes) em comunicação. Se os atuais estudos são pouco críticos, acredito em possibilidades de mudança.
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Metalinguagem: considerando o post acima em termos de esquerda revolucionária (que desvaloriza o papel da comunicação num processo revolucionário), não há direção que consiga passar seus interesses a operários ou aos próprios militantes sem jornais, panfletos, cartazes, programas de rádio, etc, que realmente expressem o conteúdo da melhor forma, dando possibilidades de diálogo, agregando, falando a língua do público. Isso é essencial e demanda estudo em comunicação.

segunda-feira, 13 de abril de 2009

Adriano e a desistência

A imprensa esportiva ficou em polvorosa na última semana devido à desistência do imperador Adriano (27 anos), um dos melhores jogadores do mundo, de praticar futebol profissionalmente por tempo indeterminado.

Não faltou quem xingasse, dissesse que ele estava viciado em drogas ou o criticasse por ter ido passar três dias na favela onde foi criado. Como assim, o cara que está no auge, sempre convocado para a seleção brasileira, tem coragem de fazer isso? Quantos querem estar no lugar dele?

A explicação de Adriano foi bem simples e lógica: "Eu não estava feliz".

O ato de Adriano foi muito digno. É uma compreensão da lógica milionária do futebol internacional. Depois de conviver por um bom tempo nesse meio, o imperador sabe que será idolatrado por uma boa partida e humilhado por um jogo ruim; conhece os exageros da imprensa e os "amigos" aproveitadores e... está farto disso, não quer mais se sujeitar a todas essas coisas.

Essa atitude me lembra a de Zidane na final da Copa de 2006, quando o zagueiro Materazzi xingou sua irmã e o francês simplesmente tacou um foda-se com famosa cabeçada contra o peito do zagueiro. Segundo Juca Kfouri, foi um suicídio esportivo no estilo "estou me aposentando mesmo, não preciso ouvir isso de quem quer que seja".

Claro que esses caras têm milhões na conta bancária e podem se dar ao luxo de cometer tais atos. Existe muita gente que quer "dar um chute no patrão", mas não pode pela questão financeira.

De qualquer forma, foi uma decisão corajosa de quem entendeu os prazeres vazios proporcionados por essa vida de "Imperador" e preferiu voltar a ser o Adriano.
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Metalinguagem: essa foto era para ser apenas ilustrativa, mas combinou bem com o sentido do post.

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009

Rápido comentário sobre a desinformação da mídia

Hoje de manhã eu estava ouvindo a rádio Jovem Pan enquanto tomava banho. O assunto era a destinação de verbas públicas para programas envolvendo reforma agrária.

O comentarista da rádio (cujo nome me fugiu neste instante) descia o cacete em Lula, pois neste segundo mandato, o presidente triplicou a quantia de dinheiro repassado a assosicações como o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), que não pensam duas vezes para "ferir a ordem", ainda por cima com verba vinda "dos impostos da população que trabalha honestamente". O velho discursinho.

O nobre comentarista se esqueceu de dizer que faz algum tempo que João Pedro Stédile (foto), membro da direção nacional do movimento social, brada aos quatro ventos que Lula é um traidor, pois privilegia o agronegócio e não destinou quase nenhum recurso para a reforma agrária em seu primeiro mandato (talvez por isso a facilidade em triplicar a verba).

É engraçado como a maior parte da mídia ainda tenta pintar Luiz Inácio como uma ameaça de esquerda, mesmo fazendo um governo tão bom para os bancos, empresas e poderosos em geral.
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Metalinguagem:
o MST passa por diversas contradições internas, até mesmo estruturalmente, mas é o movimento social brasileiro mais importante neste momento - talvez esse tenha sido o principal motivo do post.

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009

O bom filho à casa torna... mas com outros olhos e ideias

Foto de uma rua de Suzano, na época da eleição - tirei-a para um ensaio na faculdade

Se você pegar o mapa do Estado de São Paulo e localizar a capital, vai verificar que colado à Zona Leste da metrópole, existe um punhado de cidades (dez, para ser mais exato) que forma a região do Alto Tietê.

Eu nasci numa dessas cidades, Suzano, onde vivi os 19 primeiros anos da minha vida.

E foi justamente levando o nome dessa terra (meu apelido na época de faculdade foi "Suzano") que passei quatro anos estudando jornalismo na Unesp de Bauru. Quatro anos bem mais intensos,em todos os sentidos, do que os 19 que havia vivido na cidade homônima a minha alcunha.

Terminado o curso, voltei para casa pensando em não ficar. Mas algo importante para um desempregado (um emprego) me ligou novamente a Suzano e à toda Região. Tornei-me repóter da editoria de cidades do jornal Diário do Alto Tietê há pouco mais de um mês.

Sempre reneguei minha cidade e o Alto Tietê. Certamente por ter aprendido muita coisa em Bauru que me fez romper com padrões que eu tive como inquestionáveis durante minha formação inicial.

Mas agora, com o (ralo, mas precioso) caldo cultural adquirido na academia, consigo lançar outros olhares sobre essa região cheia de conurbações, cidades dormitório, fios de telefone que cortam as ruas (quase sempre estreitas), muitas favelas, muitas fábricas, muito cheiro ruim exalado das fábricas, muitos migrantes do Nordeste, muita miscigenação cultural, muita politicagem - todo esse "monte de muitos" a apenas 40 minutos de São Paulo.

Com o trabalho de repórter passo a conhecer um pouco mais de tudo isso... o que pode gerar vivência para fazer coisas pelas quais me interesso (jornais populares, documentários, reportagens) e que não existem por aqui, principalmente em se tratando de algo que sirva de base para as camadas populares pensarem de outra forma, algo com conteúdo crítico.

Em resumo, revisito com outros olhos a base da minha formação identitária , e com instrumentos para tentar mostrar o quão anormal são as coisas normais que acontecem por aqui. Espero que consiga fazê-los funcionar a médio prazo.
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Metalinguagem: acho que é bom para os raros leitores deste blog saberem que estou trabalhando, pois como disse o Max, grande professor que tive na faculdade, a profissão é a espinha dorsal da vida.

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009

O caso da Vila Ipelândia

Na semana passada, visitei um lugar chamado Vila Ipelândia. Um bairro da periferia de Suzano, onde eu nunca tinha ido, mesmo tendo morado aqui por 19 dos meus 23 anos.

A parte pobre da Vila Ipelândia é uma favela, mas tem casas de alvenaria, hortas e as ruas, apesar de serem de terra, parecem terraplanadas.

Acontece que, justamente nessa parte pobre do bairro, planejava-se fazer uma represa (a de Taiaçupeba) há muito tempo (cerca de 30 ou 40 anos), na época em que ninguém morava lá ainda. Mas como não começavam a construir essa represa nunca, quem tinha pouco dinheiro e nenhum lugar para morar foi para lá, comprando escrituras falsas ou ocupando a terra. Alguns com o pé atrás, outros nem sabiam do possível risco. Enfim, construíram casas de alvenaria, com muita economia e sofrimento, como a Dona Maria dos Santos, com quem tive o prazer de conversar.

Acontece que o governo do Estado resolveu transformar a lenda em realidade. Declarou que a terra já estava destinada a ser represa, era lugar de manancial e deu a ordem de despejo. Os moradores tiveram duas opções: mudarem-se para um prédio do CDHU no outro lado da cidade ou aceitar 10 salários mínimos, cerca de 4.500 reais para arranjar uma outra casa para alugar.

Uns moradores acharam bom, é verdade. Pois moravam em barracos e agora vão morar em apartamentos. Mas não são todos que podem desfrutar desse recurso (é preciso ser casado, maior de 35 anos, etc.), sem contar que muitos já criaram raízes no local. Dona Geni Clemente, que tinha construído uma casa de alvenaria, gastou 35 mil reais na obra. Agora vai se mudar para um prédio, que tem o valor de 40 mil, mas vai ter que pagar prestações e não poderá mais plantar em sua horta.

Depois de ter visitado as casas da Vila Ipelândia e os apartamentos do CDHU, é possível fazer mil análises e divagações, mas gostaria apenas de relatar o óbvio, já que muitas vezes se esquece dele: se fossem ricos que morassem ali, não importaria se a área fosse de manancial ou se uma represa estivesse pronta para ser construída, não importaria nada... eles conseguiriam mudar tudo a seu bel prazer...

...mas são pobres, portanto, se fodem.
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Metalinguagem: sobre esse assunto, penso em mandar emeio ao Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB) relatando o caso da Vila Ipelândia, para ver se eles conseguem fazer algum contato com o pessoal, mostranto que tudo isso não deveria ser encarado como normal.

segunda-feira, 26 de janeiro de 2009

"Qual é a ideologia do Lula?"


O título deste post foi a pergunta que ouvi de um dos entrevistadores tucanos do programa Canal Livre (que vai ao ar sempre nos domingos à noite) durante uma retrospectiva das melhores entrevistas de 2008.

O entrevistado era Fernando Henrique Cardoso.

FHC pode ser um grande tucano reacionário, mas não é nada bobo. Sociólogo formado pela USP, ele conhece Lula (dos tempos da ditadura) e tem embasamento teórico e de convivência para responder tal questionamento.

O que ele disse foi mais ou menos assim:

"O Lula é senso-comum. Digo isso sem ser pejorativo. Ele tem uma formação católica, acredita que faz o bem. Ele não enxerga o mundo pelo viés da luta de classes. Simplesmente pensa que é possível resolver qualquer problema por meio da conciliação. Para Lula, colocar todo mundo para conversar ao redor de uma mesa e chegar a um consenso é a grande estratégia política".



O pior é que é assim mesmo que ele pensa. Dá para ver isso claramente em alguns filmes, como em "ABC da Greve (sobre as greves do fim da década de 70, no ABC)" e "Entreatos (sobre os últimos dias de Lula antes de tomar o poder como presidente, em 2002)". Até quando opinou sobre o massacre de Israel na Faixa de Gaza, Lula disse que seria bom que todos "sentassem à mesa para conversar e chegar a um acordo".

Não vou me alongar no assunto porque não quero revelar partes importantes dos filmes citados. Mas mesmo não sendo um expert em sociologia e política, sei que existem interesses irreconciliáveis. Tentar conciliar os interesses da classe trabalhadora com os da classe dominante nunca trará os mesmos benefícios para ambas.
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Metalinguagem: já faz um tempo que eu queria escrever sobre isso - o assunto estava quase escapando da minha cabeça, mas consegui trazê-lo e pari-lo

sexta-feira, 23 de janeiro de 2009

Obama na disputa dos smartphones

Essa fiz questão até de escanear.

Sob o título de "Obama já começou as mudanças: vai trocar de smartphone", a empresa palm pagou meia página do caderno especial que a Folha publicou sobre a posse do Obama, na quarta, pra propagandear o seu aparelho do gênero, um tal de tréo pro. A propaganda se utiliza de uma nota publicada pela própria Folha, como podemos ver na imagem abaixo (clique nela para vê-la em tamanho maior):


Acontece que para azar dos publicitários da palm, vejam só a notícia que apareceu hoje na mesma seção de notinhas da Folha (também clique pra poder enxergar):



Se o pessoal da BlackBerry for ligeiro, amanhã já soltam um contra-anúncio direto no estômago daqueles que quiseram bancar os espertinhos.

quinta-feira, 22 de janeiro de 2009

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