Mercy Zidane

quarta-feira, 7 de maio de 2014

Kardec e a insustentável leveza do futebol


Noutro dia, fui surpreendido com a notícia de que Alan Kardec, o melhor jogador do Palmeiras, iria realmente deixar o clube para acertar com um rival – o São Paulo. No começo, não acreditei muito nas especulações da imprensa, já que sempre que o Palmeiras vai mais ou menos bem em alguma competição, ela cava negociações dos destaques do time (Wesley e Valdivia também foram cogitados fora do Palmeiras após a razoável campanha no Paulista e a vitória sobre o Criciúma na primeira rodada do Brasileiro). Consequência de anos a fio de times pouco competitivos.

2014 é o ano do centenário do alviverde e o que deveria ser um ano de comemoração fica dramático para um time que vai lutar, no máximo, para ficar no meio da tabela do Campeonato Brasileiro. Sem me alongar nas repetições de análises de especialistas e apaixonados (pois esse não é o foco da postagem), sem dúvida foi um vacilo da diretoria (que tenta sambar num pé só para lidar com enormes dívidas), mas que não justifica a humilhação sofrida: há perda técnica para o time, para o moral dos jogadores, para o planejamento da temporada, além da questão simbólica de acabar fazendo como os times pequenos, que não conseguem segurar seus principais atletas devido ao fator grana, apesar de toda a grandeza do Palmeiras.

E mesmo eu já tendo 28 anos, bateu aquele tipo de tristeza bem parecida com a que ocorre quando algo dá muito errado na vida (demissão de um emprego, brigas com grandes amigos, etc.). Fiquei de mau humor por uns três dias. Era só pensar em Palmeiras (coisa muito recorrente) para bater uma dorzinha no peito.

Era pra tanto? Certamente que não, mas futebol é uma coisa, convenhamos, difícil de explicar. Só que, pelo menos, o caso trouxe à minha mente a reflexão sobre a força meio infantil e sem sentido que o futebol, com relação a todo o universo que envolve um torcedor fiel de uma equipe, tem.

Em 99% dos casos, é uma influência que vem de cedo e costuma ter motivação familiar – raras vezes o esporte bretão angaria um novo apaixonado se este já ultrapassou a adolescência. O jogo coletivo dos poucos, mas prazerosos tentos, dos esquemas táticos variáveis em que o brilho individual costuma prevalecer perante brucutus (mas nem sempre), e das torcidas apaixonadas agarra o nosso coração e, quando isso acontece, costuma durar até o fim da vida. Mesmo quem viu craques do nível de Ademir, Leivinha e Cesar Maluco, rende-se à explosão de alegria de um gol de Marcão (o zagueiro/lateral esquerdo, não o São Marcos), de Robert ou de Marquinhos Gabriel, jogadores que não deveriam sequer ter tido a chance de envergar o manto palestrino.

A felicidade de um gol, de uma vitória ou da conquista de um campeonato é tão intensa para um torcedor fanático que parece que foi ele o responsável por tudo isso – vide a alta quantidade de superstições esdrúxulas dos exaltados em jogos decisivos. Ele se sente confiante em vários âmbitos da vida com o resultado positivo. Pode zuar os amigos torcedores de times rivais, vestir, orgulhoso, a camisa de seu time enquanto desfila pelas ruas, altivo.

Nas derrotas, a mesma lógica com a situação invertida: não foi o torcedor que montou esquema tático, contratou os jogadores ou deu palestras motivacionais na véspera de uma partida importante, mas a sensação de derrota, humilhação e abatimento é mais aguda do que nos próprios onze penas de pau. 

A realidade, porém, é que o torcedor pouco interfere na campanha de um clube e é daí que vem o aspecto infantil da coisa. Racionalmente falando, não há uma motivação clara para você gostar mais de um clube do que de outro. Algum torcedor já vasculhou a história de vários times antes de combinar sua gratidão eterna com algum deles? Comparou ídolos? Ponderou qual era o uniforme mais bonito? Duvideodó.

Mas uma camisa pirata dada de presente pelo pai, o gosto predileto por uma cor que coincide com as ostentadas pelo escudo do clube ou um gol emocionante numa final de campeonato que  foi assistida quando a TV estava ligada por acaso (tudo isso, geralmente na infância) podem fazer com que o seu coração seja eternamente devoto de um time, a ponto de a perda de um jogador que está longe de ser um dos mais importantes da história da agremiação fazer com que você perca o humor. E por três dias.

Um motivação simples, pouco profunda e muito mais sensorial que racional pode ter um peso insustentável (parafraseando em outro contexto o famosíssimo "A insustentável leveza do ser", de Milan Kundera), com a propriedade de proporcionar espasmos de alegria ou tristeza ao longo de toda a existência.

Será que vai ser sempre assim? Será que, num mundo diferente, em que o fator predominante para um jogador escolher este ou aquele time não for o dinheiro, seremos ainda tão fanáticos? Será que não somos tão loucos por assistir futebol porque soltamos nossos fantasmas dos dias de trabalho alienado em frente à televisão? Será que se tivéssemos mais lazer e mais times amadores as coisas seriam diferentes?

Tenho minhas suspeitas, mas, sinceramente, não sei. Só tenho a certeza de que meu coração vai morrer verde e branco, chorando com os vexames e sorrindo com as conquistas.
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Metalinguagem: fazia realmente muito tempo que eu não falava sobre futebol por aqui.

segunda-feira, 17 de março de 2014

Ao senhor Yoshiro








O senhor não lembrava de nada antes de adquirir consciência, uns anos depois de nascer, lá no Japão. Exatamente porque nada, para o senhor, existia. O mundo já estava aí há uns bilhões de anos e se algo de material configurou um entre tantos corpos humanos - partículas, moléculas de carbono pairando na natureza e fixadas nos alimentos e nos corpos antepassados - o senhor há de convir que não havia uma consciência una. Essa coisa que chamamos de alma, que só existe num corpo material a partir de junção de diversos tipos de moléculas, de modo que se obtém um controle sobre as ações do pedaço de carne perecível, não existia. E por não existir, não pensava em existir, não tinha vontade e nem preguiça. Mesmo assim, apesar da chance minúscula, o espermatozoide fecundou o óvulo e o corpo se fez, do nada. É assim que ela surge.

Então, se a vida é bela como alguns dizem, ela tem um lado um tanto difícil também. Infância dura, tentar a sorte no Brasil, trabalhar na lavoura, conseguir emprego num banco, sustentar oito filhos - que tinham que se limpar com jornal porque o papel higiênico era muito caro.

E enquanto o tempo passou, as células foram se reconfigurando na sua cabeça, muitas vezes, sem o senhor querer. Veio o derrame, que transformou o velho japonês rígido em uma pessoa mais humana, mas que também não se lembrava de muita coisa. No seu âmago, o senhor pensou sobre tudo isso? Sobre o tempo que nos enterra um pouquinho a cada segundo?

Noutro dia sonhei que eu estava morrendo. Metiam-me uma bala na cabeça. E poucos segundos antes eu já sabia o que aconteceria, pois estava rendido. Uma leve curiosidade me cutucou, com certeza de que seria saciada em breve. Será como o melhor sexo da vida? Uma explosão rápida? Um adormecer despretensioso? As células se fragmentam. A tal da "alma" some. A decomposição começa, mas já não estamos aí pra ver.

E quem fica... quem fica vai sentir saudades ou alívio e depois de um tempo também vai ter o mesmo destino. O senhor já imaginou quantas pessoas choraram e sofreram por mortes desde que o mundo é mundo?

Se viemos do nada e a nossa vida é pura sorte, o senhor já pensou que nós vamos pro nada também? Vamos ser o pó de estrelas que forma tudo, todos nós. Assim como a vida, senhor Yoshiro, a morte é trágica, mas também é bela.

domingo, 9 de fevereiro de 2014

Uma lembrança sborniana


Quando eu era criança, minha mãe, minha irmã e eu viajávamos quase sempre para Cruzeiro-SP nas férias, a cidade em que minha mãe foi criada. Era bem raro irmos para outro lugar. Mas uma das exceções ocorreu no início de 99 ou de 2000 (ou seria 2001?): fomos a Porto Alegre.

Apesar de já fazer tanto tempo, ainda me lembro de algumas coisas: o calor que fazia quando caminhávamos às margens do Guaíba, o passeio de barco, a feirinha do centro da cidade, a tentativa frustrada de vermos um show gratuito do Nenhum de Nós perto da Usina do Gasômetro. Mas o evento mais marcante foi, sem dúvida, acompanhar a apresentação do espetáculo Tangos &  Tragédias, no Theatro São Pedro.

Pode ser que eu tenha distorcido as coisas com o tempo, mas lembro-me que ficamos na parte de cima do teatro, que era realmente muito bonito e tinha um lustre imenso. Aí surgiram os dois músicas loucos - um com cabelo preto espetado e que tocava violino, e outro com cabelas grisalhos lambidos para trás, tocando um acordeom.



Do show em si, lembro de pouco: da música que dizia "Nós nascemos na Sbórnia" (vídeo acima) - o país fictício bombardeado por explosões nucleares, de onde vieram os bem vestidos personagens -, de muitas piadas hilárias, da execução de canções mais sérias e dos dois músicos levando o público para o lado de fora do teatro, antes que a apresentação fosse triunfalmente encerrada.

Tiramos fotos e compramos o CD que, claro, nunca poderia ser tão bom como uma apresentação teatral e musical sensível, engraçada e interativa, e que ocorre todo verão, no mesmo local, desde 1987.
E, noutro dia, dei de cara com a notícia sobre a morte de Nico Nicolaiewsky, o Maestro Pletskaya - músico de cabelo lambido que tocava acordeom. A internet me lembrou que a dupla do Tangos participou dum disco ao vivo do Pato Fu e me mostrou o interessantíssimo trabalho mais recente do Nico, o Música de Camelô.

E eu, mesmo não sendo gaúcho, peço licença para ficar triste pela perda de um cara que, além de grande artista (posso afirmar isso pelo pouquíssimo que vi com os olhos de hoje de sua obra, em rápidas pesquisas de internet - tanto do Tangos, como a carreira solo) deve ter feito muita gente se lembrar, com uma saudade boa, de noites como aquela que eu tive num verão porto-alegrense, há uns 14 anos.

sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014

Coutinho me fez alugar filmes das prateleiras empoeiradas


Quantos filmes será que já foram feitos na história da humanidade? Quantos foram dublados? Quantas pessoas os assistiram? Quantas películas (em média) uma pessoa assiste ao longo de sua vida? Infelizmente, essa estatísticas dificilmente se tornarão disponíveis um dia (sobre o tema, leia mais neste acurado artigo científico), mas, com a televisão tão presente em nossas vidas e a ida ao cinema (independentemente do filme) sendo um lazer razoavelmente difundido em muitos países do ocidente, temos acesso a produções cinematográficas desde muito jovens. Conhecemos os gêneros, os principais atores, diretores, lançamentos, clássicos (geralmente internacionais, já que os filmes brasileiros são difundidos em pequenos nichos), etc. - tudo isso, em geral, levando em conta o cinema comercial.

Só que um desses gêneros é maldito. Tanto que muitos nem o consideram como parte da sétima arte. Quem nunca ouviu a pergunta "é filme ou documentário"? É um documentário, mas não deixa de ser um filme por isso.

Eu pensava como todos os que associam documentário a uma terrível voz em off (também conhecida como "voz de Deus", pelo fato de o narrador não aparecer na tela e explicar tudo de modo muito convincente) que cita as características inconfundíveis dos pinguins da Patagônia, de uma forma lenta, enquanto enfoca os animais em sequências intermináveis. Mas, no terceiro ano da faculdade de jornalismo, fui apresentado a alguns filmes de diretores importantes do cinema documentário.

Lembro de ter assistido, durante as primeiras aulas de Jornalismo Televisivo II, a pelo menos três filmes: "O prisioneiro da grade de Ferro", de Paulo Sacramento; um doc sobre um artista hollywoodiano decadente (cujo nome não me recordo agora) e que era montado apenas com fotos; e "Cabra marcado para morrer", para muitos, a obra-prima de Eduardo Coutinho, que enfoca a interrupção de um filme ficcional militante devido ao início da ditadura militar. Depois de gostar muito das três películas, entendi que documentário é muito mais do que o senso comum diz que ele é - assim como um filme de ficção, ele pode ter uma narrativa, uma estética, uma concepção de edição, uma finalização, uma trilha sonora, etc., só que partindo de uma percepção do real. Em outras palavras, é um filme como qualquer outro.

Comecei a correr atrás de outras produções do gênero e fui rapidamente atraído pelos trabalhos mais recentes de Coutinho: "Edifício Master", "Santo Forte", "Peões" e "O fim e o princípio". De maneira geral (ou seja, excluindo as diversas particularidades desses quatro filmes), o que me chamou atenção foi a falta de recursos tão comuns ao cinema convencional. Não há cortes rápidos ou trilha sonora que "prepara o terreno" para a emoção a ser sentida logo em seguida. O diretor e sua equipe não se comportam como uma "mosca" que não quer ser notada pelos espectadores - eles aparecem no filme, mostram que são parte dele, e que, por tabela, o filme é uma construção, e não a realidade, comumente tão associada aos documentários. Os protagonistas são ilustres desconhecidos e a profundidade das entrevistas é imensa, ao ponto de o entrevistado falar e fazer coisas que dificilmente esperaríamos.



Depois, vi outras produções do diretor: "Santa Marta: duas semanas no morro", "Teodorico, imperador do sertão", "Boca de Lixo", "Jogo de Cena" (imagem acima) e "Moscou".

E mesmo podendo dizer que a maior parte dos filmes segue certos padrões (a utilização de uma locação fixa, desconhecidos como protagonistas, trilha sonora tirada apenas do ambiente, conversas longas em que não há uma tese a ser provada ao final do filme -a não ser a de que uma conversa longa de uma pessoa simples pode dizer muito sobre a vida-, a pouca importância dada à precisão ou à imprecisão do que os entrevistados dizem, deixar de lado a voz em off), Coutinho questionou todos eles ao longo de suas produções. Em "O fim e o princípio", ele "correu atrás do filme" sem saber aonde iria parar; usou atrizes famosas em "Jogo de Cena", talvez o filme mais expositivo da ideia que queria passar (a de que o documentário também é um ficção); em "Moscou", não fez perguntas aos atores; em "Cabra Marcado...", tentou reconstruir os fatos com um rigor talvez um pouco maior; usou a voz em off do próprio Teodorico, em "Teodorico, o imperador do sertão".

O nome de Coutinho ficou muito ligado ao tal "cinema de conversa" e à profundidade que ele passava, mas ele fez muito mais que isso. Produziu ficções não documentais no início de carreira, teve experiência militante no CPC da UNE, amadureceu um estilo de produzir cinema (no qual seus filmes mais famosos estão), mas sempre o questionou e fez experiências para superá-lo. E, para mim, tudo isso somado às qualidades que possuía para "conversar" e enxergar o filme nessas e em outras "conversas" fizeram ser um dos grandes do nosso cinema, a partir de uma produção sincera e provocadora. Sincera porque os filmes de Coutinho sempre deixaram claro para o espectador que há um grupo de pessoas produzindo a película, a partir de uma visão deles acerca da realidade (o documentário não é o "real"), além de desdenhar dos "efeitos de sedução" da montagem convencional para fisgar seu público. Não era ali que estava o filme, era no conteúdo. E provocadora mesmo por ousar fazer tudo isso, por apostar na profundidade, no questionamento de paradigmas do cinema convencional, na simplicidade de boas conversas com pessoas humildes e na ficção documental.

Em geral, os críticos o olham como um cineasta do "humano". Sim, Coutinho extraiu emoções de seus entrevistados que poucos diretores conseguem tirar de seu atores em filmes de ficção, mas teve as contradições sociais muito presentes em grande parte da sua produção. Não fez um cinema militante (talvez o primeiro "Cabra marcado..." tivesse sido), não quis convencer ninguém a tomar partido, mas se interessou por mostrar como moradores de favelas, trabalhadores presentes no ascenso do ABC, catadores de lixo e sertanejos entendiam o mundo. Apesar de ter transitado, em alguns filmes, pela camada média decadente, é possível que o gosto pelos pobres anônimos e pela história não oficial seja uma herança dos tempos militantes. Coutinho foi um cineasta do humano, com sensibilidade para os problemas sociais e uma criatividade gigantesca, que permitia a ele reinventar seu cinema muitas vezes.

Era, muito provavelmente, aos 80 anos, um dos diretores mais vivos do cinema brasileiro e mundial.

E depois de pensar nisso tudo devido à trágica morte de Coutinho, no último dia 2, e me questionar se eu deveria escrever a respeito, lembrei-me de um episódio, que já deve ter acontecido com muitos anônimos (que o diretor gostava tanto de retratar). Quando ainda não existiam arquivos em torrent e internet de alta velocidade, o atendente da locadora me perguntou por que eu alugava tantos documentários, desses escondidos nas prateleiras mais empoeiradas. "É para estudo ou trabalho"? Quando eu disse que era porque eu gostava, ele não acreditou. Como poderia alguém gostar de documentários?

Coutinho foi um dos grandes responsáveis.

quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

Desdescansar

Resolvi fazer uma poesia sobre tentar fazer poesias, com a popular técnica do pensamento sobre mouse sobre tela cheia de pixels.